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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

PAPO DE BOTEQUIM - NÓS EM DUBAI




Escrevi este, na piscina de meu prédio, e este diábo deste passarinho ficou o tempo todo de olho em mim. Será que ele notou que eu estava excitado com o que acontecera minutos antes do outro lado do mundo, em Dubai?
Sempre que é possível analiso os fatos com a isenção do neutro. Mas, aqui entre nós, nem sempre é possível. Tem horas que não dá. Seria como ir ao sambódromo e não sentir que seu coração bater mais forte à passagem do Salgueiro, ou no Maracanã assistir a este último Fla-Flu tomando um cafezinho. Pois, é Gloria de Campeão e Al Arab, dois animais a quem estou profissionalmente ligado, se saíram bem em suas primeiras carreiras em Meydan. E eles arrancaram do fundo do meu ser aquela parcialidade própria dos alucinados mentais-
Glória de Campeão, aclimatado e conhecedor das condições em Dubai, fez o que tinha que fazer: Correr a sua carreira. Era o cavalo de melhor currículo e simplesmente o confirmou. Imaginem se ele tivesse iniciado com Pasqual Bary desde o inicio?Vou ainda mais longe, imaginem Punch Punch, sendo treinado por um profissional internacionalmente consagrado? O que ele seria capaz de fazer no Festival?
Mas em contrapartida, Al Arab, tinha tudo contra si. Uma aclimatação e duas adaptações, já que foi do calor para o frio, e do frio para o calor, mudou de hemisfério, conheceu um novo treinador e ganhou com o absolutismo do juízo final.
Como sempre digo sem vontade de ganhar, não se derruba uma bastilha, nem se ganha o páreo da segunda feira. E vontade de ganhar é o que mais estes dois cavalos parecem ter. Idênticos em desenho e expressão.
Al Arab ganhou esta carreira, não nesta última quinta feira. Ele o fez no momento que colocou suas patinhas no solo do Figueira do Lago. Sempre foi um ser superior e quando pronto para ir para o prado, sobrava. Ele não era apenas melhor que seus companheiros de haras. Ele tinha aquela pinta de chance zero de dar errado. Só o faria se não tivesse vontade de vencer, coisa que tanto ele como Glória de Campeão, o tem. Agora ele entra naquela espiral que até aqui tem sido negativa para os cavalos brasileiros que a Dubai vão, desrespeitando as leis da aclimatação. Normalmente fracassam.
Sei que não é valido opinar-se sobre o estado em que se encontra um animal, não estando a um metro dele. Pela televisão tem artista que parece uma deusa, mas quando você cruza com ela no shopping vê que a história é outra. Mas pela TV, Al Arab estava uma pintura. Com aquela cara de me joga. Dois páreos,  depois Jardim e Olimpic Danz, não me pareciam no melhor de seus dias. Logo, acredito que Al Arab sofreu menos.
Al Arab deu um vareio. Parecia o Flamengo no segundo tempo contra o Fluminense  naquele 31 de janeiro de 2010.  Ganhou como quis calçando as sandálias da humildade. No bridão tomou a ponta na entrada da reta e não sei bem porque o Blandi o chamou duas vezes ao chicote nos 400 finais. Talvez por querer que seu pupilo se mantivesse atento no que fazia. Dois páreos depois, Olimpic Danz, largou mal, foi acionado para ficar no bloco da frente, mas no inicio da curva, sentia-se que estava fora da carreira. Jardim ia fácil até a entrada da reta. Outrossim, quando acionado, descobriu-se que estava com os quatro pneus arriádos. Oroveso, o outro brasileiro que é igualmente tordilho, lhe roubou a ponta como um doce da mão de uma criança de 5 anos. E foi firme até o final, quando perdeu as duas primeiras colocações.
Ele está aclimatado e vai evoluir, o mesmo que não se pode se dizer de Estrela Anki, que embora também aclimatada, no fundo correu e no fundo ficou. Nunca disse ao que veio. Em minha opinião, sentiu a turma. Forçou-a e não se deu bem. Esta filha de Tignon Lafré não parece aquele cacoete de seu pai, de atropelar violentamente nos metros derradeiros e não deixar pedra sobre pedra.  Ganhar o Zélia Gonzaga Peixoto de Castro na Gávea, não credencia ninguém a ir a San Isidro, que dirá a Meydan.
Hot Six me parece um cavalo de qualidade. Não é um craque, mas tem coração e classe. Mas sendo dirigido da forma que foi, vai amargar derrotas como a de quinta feira. Largou na 1 bem e assumiu a vanguarda. Ai foi recolhido a quarta colocação, o que me pareceu racional, já que o primeiro ia despencado à frente e o outro brasileiro Team Victory estava a 5 corpos do terceiro. Só não sei porque cargas d’agua ele foi tirado da cerca e uma partida foi exigida com extrema antecedência. Excessiva sede ao pote. Muito antes do que poderia ser considerado normal. Hot Six assumiu a ponta, mas foi passado por King of Home e só no coração não perdeu duas posições a metros do disco.
Não se ganha de um Montjeu na linha de Judy-Rae, com experiência internacional como King of Home, ainda por cima treinado por Mike De Kock (5 vitórias em 15 carreiras) – aquele que mais respeita a aclimatação na mudança de hemisférios - dando o handicap a que Hot Six foi obrigado a dar por seu jóquei. E Kieren Fallow e Christophe Soumillon, ambos de bobeira, sem montaria no páreo...