
Marcos Luiz Pereira da Silva Vasconcellos Vidigal tinha um nome grande mas se considerava uma pessoa pequena. Daquelas que não são notadas por ninguém, e quando o são, normalmente evitadas. Ele era feio, pequeno, gordo, careca, soava aos borbotões e ainda por cima, gago. Mas a vida ensinou-lhe como vivê-la. Pouco a pouco com excesso de trabalho e muito sapo engolido, ele passou inicialmente ao estágio de útil. Sempre atento a necessidade de seus superiores, acabou por atingir o rol dos diferenciados e nele inserido, finalmente, galgou o patamar dos insubstituíveis. Nada se fazia naquela empresa, sem que de alguma forma ele fosse consultado. E finalmente chegara o grande dia: o de seu reconhecimento. Estava feliz da vida com a sua promoção. Valera a pena esperar todos aqueles anos. Depois de muito sacrifício e abnegação, ele conseguira chegar ao lugar que tanto almejara. A gerência geral. Estava ainda a alguns passos da diretoria, mas isto eram outros quinhentos. Seu estômago estava preparado para o que desse e viesse.
Quem diria? Começara naquela empresa como office-boy, galgara dia-a-dia todos os degraus que podia galgar e a partir do dia seguinte estaria sentado na cadeira que pertencera ao senhor Furtado, que com um relógio de ouro, retirara-se para viver em Cabo Frio, depois de 30 anos de trabalho. Grande o Doutor Furtado. Trinta anos de casamento, uma prole de cinco filhos, avô de doze, passado ilibado, incorruptível conduta, um exemplo para todos. Um exemplo, para ele seguir.
Saindo da empresa Marcos Luiz resolveu comemorar. Foi quando aí se lembrou que não só não tinha com quem, como também não sabia aonde e como. Comemorar... Ele nunca comemorara absolutamente nada. Resolvera torcer para o São Cristóvão, pois, era o time que no Rio de Janeiro possuía o uniforme mais parecido com o do Santos. Logo, comemoração estava fora de seu cardápio, aliás, nunca constara. Perdera os pais muito cedo e sempre fora criado por uma tia esquizofrênica que acreditava que estava na terra apenas de passagem, pois seu destino era Araupicaqueripa, o planeta perdido. Hoje, a louca estava internada em um sanatório, certa que seria resgatada por um extra-terreno de olhos laranja e cabelos verdes. Talvez uma cenoura.
Tia Irene nunca lhe dera o menor carinho, nem a mínima atenção. Apenas cascudos e beliscões de tirar pedaços. Tinha dedos fortes e sabia muito bem como usa-los. Desta forma, para o pobre Marcos Luiz nunca houve Natal, aniversário ou mesma festinha na casa de amigos. No colégio fora relegado a uma posição de total abandono, pelo simples fato de não parecer com as outras crianças. E ele nunca descobriu, exatamente, porque. Não haviam espelhos na casa de sua tia, pois, segundo ela, afugentavam os Araupicaqueripatanos. E ai, veio o internamento de dona Irene, sua posterior batalha pela vida sozinho no mundo e a entrada naquela empresa.
A verdade nua e crua é que durante aqueles dezoito últimos anos, só fizera uma única coisa em sua vida; trabalhar. Não tivera tempo para conquistar amizades, desfrutar a vida e nem mesmo conhecer os simples prazeres mundanos. E agora? Como iria comemorar, aquele que com certeza era o mais importante dia de sua existência? Tinha até recebido um presente do Geninho, o único companheiro de trabalho com quem conversara desde que fora transferido para a sede daquela empresa. Um abridor de vinhos. Grande Geninho... grande Geninho... mas o que fazer com aquele abridor de vinhos? Talvez abrir um vinho...
Marcos Luiz coçou o queixo, como sempre fazia ao ter que tomar uma decisão importante e decidiu que não se deixaria abater. Compraria a garrafa do melhor vinho que encontrasse no mercado e em casa o degustaria em companhia de Mozart. Não o músico, mas sim seu gato siamês, que de tão velho já não miava, mugia.
Era uma noite linda. Estrelada, fresca, cristalina. A brisa que vinha do mar lhe acariciou a face e umedeceu o bigode imponente. O bigode. Para que as pessoas usavam bigodes? Marcos Luiz agora sabia, que não fora para se esconder atrás do mesmo que o deixara crescer como muitos diziam. Desde que aquele companheirão crescera, sua sorte realmente mudara. Fica subtendido, que para um elemento cujo melhor amigo é o seu bigode, que qualquer dor de dente, já lhe parece um prazer. Mas a verdade, é que Marcos tornara-se mais perseverante, menos dispersivo e por assim dizer, respeitado entre os colegas. O bigode havia mudado a sua vida.
Até o Doutor Isaias, que igualmente tinha bigodes, começou a cumprimentá-lo. Que bigode! Graças a aquele bigode sua vida tomara um rumo, uma direção, um sentido! Mas nada, infelizmente, em relação as mulheres. Elas continuam arredias como antes, à sua aproximação. Ele não as conseguia conquistar, nem ao menos conversar. Seria porque ele tinha um olho de vidro e apenas a metade dos dedos da mão direita? Ou seria aquela diferença de tamanho entre as suas pernas? A calvície que o atingira ainda muito jovem, ele tinha certeza que não era o x do problema, pois, o Dr. Isaias era careca e sempre estava bem acompanhado. Nem aquele eterno problema do excesso de seus quilos, que fizeram sua cintura duplicar-se. Mas, ele tinha suas qualidades. Jogava xadrez, ouvia musica clássica, lia Proust, caçava borboletas e era um colecionador de selos antigos. O que mais uma mulher poderia exigir de um homem?
Tudo, responderia Helena Graça e Couto, se alguém a tivesse perguntado, ou pelo menos o Marcos Luiz houvesse sido notado. Helena na realidade não nascera. Fora parida, no quarto dos fundos de um conhecido meretrício da rua Alice. Sua mãe nem puta havia conseguido ser. Simplesmente, era a encarregada da troca dos lençóis dos quartos do velho casarão de número dezoito, entre uma visita e outra dos clientes. Era tão rápida que ficou reconhecida na zona. Como Mercedes Foguete. E seu recorde, nunca chegou a ser sequer igualado na área do baixo meretrício carioca. Numa tarde de Sábado trocara 37 lençóis num período de apenas 8 minutos. E ainda tivera tempo de beber um copo de água.
Mas Helena havia nascido bonita, não se sabe porque, pois, nem um pai tinha. Mercedes, sua mãe, neste troca, troca de lençóis, um dia tropeçou e caiu sobre um deles. Como não estava usando calcinha por baixo de sua saia, já que o calor era grande e o abafamento daquele casarão intenso, foi atacada por um espermatozóide saltitante e vivo que encontrou o seu caminho para o útero. E dai veio a bela Helena, que como prêmio, parecia valer um cavalo de Tróia.
A vida ensinou a Helena desde cedo, que a única coisa que ela possuía naquela vida, era a beleza e esta terminava mais cedo do que se pensava, principalmente, se regada a falta de grana. E atrás de grana ela saiu, prostituindo-se a partir dos oito anos de idade. Mas ao mesmo tempo que prostituía-se, usava o dinheiro que arrecadava em tentar melhorar culturalmente. Com este dinheiro comprou seus livros, freqüentou escolas noturnas e aos trancos e barrancos, formou-se em contadora. Aliás, contar sempre fora o seu forte. Tanto dinheiro como histórias. E para a mesma firma de Marcos Luiz ela entrou. De sofá em sofá conseguiu uma melhor posição embora capacidade de trabalho nunca lhe faltasse. Mais semvergonhice lhe sobrava.
A cigarra solitária fez Marcos lembrar de outros verões. Solitários como aquele. Marcos estava de saco cheio de ser só. Ele não aprendia a ser só. Seu restante olho emanava uma admiração muda ao ver todos os dias a dona Heleninha, com aquelas suas cadeiras bamboleantes dentro de uma saia colante e sobre sandálias cujos saltos fariam inveja a aqueles aranha céus que ele tinha agora à sua frente. Mas nada. Dona Heleninha nunca lhe dera a mínima bola. Nunca notara sequer a sua existência. E mesmo quando em grupo, sempre o tratara com total desafeto. Desnaturada, incessível, petulante... mas ótima.
Seus opulentos seios, sua fina cintura, suas cadeiras largas e aqueles pés esculpidos por Michelangelo, não lhe saiam da cabeça. Era uma mulher exuberante. Seu perfume, suas saia colante, suas pernas longelíneas, seus decotes provocantes. Que mulher! Que pecado! Que paraíso! Sim, dona Heleninha tinha a capacidade de lhe tirar do natural. Ela era tudo aquilo que ele pedira a Deus. O problema é que Deus parecia ser surdo.
Dona Heleninha, embora solteira não lhe dava a menor chance para uma tentativa sequer, de um convite para um almoço de um investida libidinosa ou uma mera proposta indecorosa. Ela, simplesmente, o ignorava, embora há mais de cinco anos trabalhassem em mesas adjacentes. Nem seu nome ela parecia saber. Parecia uma mulher direita e compenetrada. Esquecer era o melhor. Dona Helena era linda, mas infelizmente não era para o seu bico, mesmo tendo este sido promovido.
“Mais eu preciso aprender a ser só...” A musica do toca fitas de seu carro o irritou. Maysa. Que olhos, que voz, que peso... Ele estava se deixando levar pelo derrotismo. Tinha apenas 44 anos e embora virgem, ainda havia muito tempo para recuperar o terreno perdido. Principalmente agora que era o novo gerente geral da sucursal mais importante daquela multinacional. A promoção ainda por cima, praticamente dobrara o seu salário. O problema que ganhava antes tão pouco que o fato de tê-lo dobrado, não fazia realmente uma grande diferença...
“Como aquele mulambo pode vir a ser promovido” - pensava consigo a bela Helena, puta dentro das calças, embora fosse sem as mesmas que ela exercia com maior sagacidade suas maiores aptidões.
Agora que o Fufu havia se aposentado e se mandado lá para as bandas de Cabo Frio, seria mais difícil para ela arrancar algum no final do expediente. Que merda! E o Fufu era ótimo, garantia-lhe o aluguel, tinha ejaculação precoce e o melhor de tudo um pênis do tamanho de uma caneta bic... sem carga... Heleninha podia pintar as unhas, enquanto Fufu fazia o seu serviço.
O pior, é que semanas antes ela igualmente perdera o Isaías, que brochara de vez e perdera completamente o interesse no negócio. Ele era igualmente rápido, pois, tinha hora para chegar em casa e também era a garantia que seu carro estava sendo pago em dia. A perda de dois provedores em um só mês. Era castigo demais! Heleninha, perdera aquele seu ar auto triunfante, pois, acabara de ter a nítida noção que entrara num salto de para-quedas em direção a realidade, e a porra do para-quedas não parecia querer abrir. Era jovem, capacitada, mas a vida mole, havia amolecido seus sensores de auto reação. E assim Heleninha, na flor de seus 24 anos e no volante de seu Wolkswagen, estava vagando pela noite à caça. Farejando otário qual um perdigueiro a cata de perdizes.
No caminho de casa, com o vinho postado no banco de trás de sua caminhonete Marcos Luiz se viu momentaneamente ofuscado pelos faróis de um automóvel que vinha na direção contrária, numa velocidade acima da prevista pelas placas daquela rodovia. Marcos tentou se desviar, mas foi impossível. O motorista do outro lado havia avançado para o seu lado da pista e estava a caminho de seu pára-choque. Assim, não houve jeito, sua possante caminhonete se chocou com o pequeno Volkswagen negro e ambos os carros saíram da pista. Para sorte de ambos, um gramado os fez parar sem maiores danos e tudo não passou na realidade de um grande susto e de uma boa dor de cabeça, principalmente, para o dono do Volkswagen que parecia estar fadado a perda quase que total.
- Deus seja louvado! - exclamou Marcos fazendo o sinal da cruz, com a mão esquerda, a única que tinha todos os dedos, ao sentir que o perigo a que fora obrigado a passar, havia se extinguido.
Desligou o seu carro e deu uma geral ao redor de si. Ele estava inteiro, a garrafa de vinho que acabara de adquirir, também. À frente de seu carro não parecia ter sofrido muito. Mas dali, aonde estava, sentiu imediatamente, que não poderia se dizer o mesmo em relação ao outro carro. A perda era grande. Ainda mais que fora o outro veículo o causador do desastre. Logo, teria que ser o seguro do outro motorista a pagar, ambos os concertos.
Marcos Luiz, desceu de sua caminhonete e viu que logo a seguir uma mulher deslumbrante acabava de abandonar o fusca. Era alta, magra e nariguda. Estava bem vestida e não parecia ter se machucado no choque. Os faróis ainda ligados lhe ofuscavam a visão. Marcos Luiz ajeitou melhor seus óculos. E pouco a pouco foi capaz de reconhecer a imagem que agora surgia qual um sonho à sua frente. Meu Deus, ele a conhecia. Era a Dona Heleninha. Sua idolatrada dona Heleninha. E ele quase a matara. Ou melhor ela quase se deixara matar...
Heleninha, que não havia reconhecido ainda o dono do outro carro se pôs a chorar copiosamente ao tomar conhecimento do estado em que agora se encontrava seu pobre fusca. E isto, sem ter ainda chegado até a frente do mesmo. Seguro, nunca tivera, logo sua situação era critica, pois, fora sua culpa.
- Da...di...do..dona Heleninha, espero que não tenha se... se... se... maaa ... chucado.
A bela Helena se assustou ao ouvir seu nome. Olhou, novamente, para aquele pequeno vulto cambaleante que vinha em sua direção e franziu os olhos para melhor poder focalizar-los naquela penumbra. A forma como mancava e a voz lhe trouxeram a imagem de reconhecimento em sua mente.
- Felizmente não... SENHOR MILTOM?
- Ma... Marcos, dona Heleninha. Marcos Luiz Pereira da Silva Vasconcellos Vidigal. Um... ca... caqui... criado a seu eterno dis... dispor... – a força do hábito o fez repetir a frase de sempre.
Mas que mancada, ter esquecido o nome daquele bosta, todavia, tudo na vida tinha uma razão de ser. Onde havia confusão, havia oportunidade. E ali havia cheiro de carniça. Achegou-se com seu apurado olfatômetro. Hora de tergiversar, pensou a malandra, pelo menos até que uma idéia melhor pudesse lhe vir a cabeça.
- Como está o senhor?
- Nada fé... fé... felizmente aconteceu comigo. Não se pré... preo ... preocupe. E a sa ... si... senhora? Dói em algum luuuu ... gar?
Heleninha tinha ainda que escolher qual seria o lugar que mais vantagem lhe poderia trazer, principalmente, em se tratando de um otário como aquele a sua frente.
- Aqui no peito - Marcos quase entrou em processo de orgasmo ejaculativo precoce - Por favor. Toque aqui e sinta. Acho que dói.
Marcos tocou com os parcos dedos que possuía e sua erupção ejaculatória mostrou-se bastante próxima. Teve que conter-se.
- Ui!
Como não queria dar bandeira, foi ainda mais evasiva e tratou logo de puxar a conversa para o seu lado.
- Que lambança eu acabei arrumando, não é senhor Mauro?
- Ma... Mi ... Ma... Marcos, dona Heee ...leee...na. Marcos Luiz Pereira ...
- Mas não foi o que eu disse?
- Não, a sa... si... senhora primeiro me chamou de Ma... Mi... Milton e a seguir de Maaa...Mauro.
Milton, Mauro, Marcos. Merda, tudo era com m...
- Deve ser o reflexo da batida...Estou ainda um pouco abalada...
- Mas, fa... fé... feelizmente, tudo parece que não passou de um sa ...si so... susto.
- O senhor pode tirar a mão.
Ele sorriu e ao mesmo tempo renunciou ao toque. Ela nunca havia reparado até ali nos dentes do monstro. Eram disformes, separados e da cor de milho. Aliás, pareciam caroços de milho. Seria aquele verme descendente de uma espiga?
- Como está tudo bem, seu.. Marcos..? – com a concordância do mesmo ela estufou os peitos, que digam-se de passagem não eram pequenos, e com um biquinho angelical, completou em total estado de compadecimento – Como ser apenas um susto, se eu quase o matei.
Meu deus ele era feio demais. De perto, causava ânsias de vômito.
- Não foi ca... caqui... ca... caso para tanto, dona Heee...leee...ninha. E a senhora como está?
- Chocada...
- Iiiiiimagino.
- Estou chocada... com.. com.. com a minha imprudência. Eu nunca me perdoaria se o tivesse aleijado...
Se bem que não havia muito mais a se aleijar naquele traste.
- Mas o que a fez ma...mi...mudar de faixa?
A conversa já estava se encaminhando na direção que a interessava.
- Acho que dormi no volante. Este excesso de trabalho está me levando a estafa mental e física. - respondeu ela, só então tomando conhecimento do que realmente sobrara a frente de seu carro.
Cacilda! Aquilo ia sair muito caro. Aliás, imensamente caro. Ainda mais levando-se em consideração que seu seguro nunca fora pago, assim como vencida estava sua carteira de motorista. E não havia jeito de argumentar. Ela fora a culpada. A não ser que ela apelasse para o olho de vidro e a falta dos dedos do senhor Marcos. Afinal, ele era um deficiente. Com aquela diferença de comprimento nas pernas, não deveria dirigir carros. Aquilo poderia dar samba... Mas como explicar ser exatamente o seu carro, que estava na faixa errada? Que prejuízo. Lá se foram suas férias no Caribe com a Gildinha.
- Creio que da...di... devamos chamar a políiiicia. Assim o seu sa...si...seguro se incumbirá de ressarcir o prejuízo dos dois carros.
- Com certeza que sim - concordou ela encostando-se em uma das laterais da caminhonete, procurando vislumbrar uma saída rápida para aquele problema.
Como poderia sair desta? Aquilo tudo ia realmente doer no fundo... no fundo... no fundo de que? Se, nem mais bolso, ela tinha. Se pelo menos o Isaías estivesse na ativa ou o Fufu não tivesse se aposentado...
Um charme para o senhor Marcos resolveria o problema? Afinal há anos que ele se engraçava inutilmente para ela. Pobre verme. Mas como justificar um apaixonamento repentino? Seria então melhor apelar para a caridade que parecia fazer parte daquela coisa horrenda? Afinal, ele acabara de ser promovido a gerência geral. Seu novo salário poderia arcar com os prejuízos. Mas como fazê-lo?
- Ufa, pelo menos estamos inteiros e aqui sozinhos nesta noite escura. Pena que nesta estrada não passe quase ninguém.
- É mesmo dona Heee...leee...na. Precisamos de aji jô...juiuda.
O diabo não tinha pescado a idéia geral. Tinha que partir para outra.
- Aí.
- Onde dói dona Hee...leee...na?.
- Aqui - respondeu ela elevando sua mão esquerda agora a altura das nádegas.
As meninas dos olhos de Marcos, quase saíram de circulação. Aquela região glútea era de seu total conhecimento. Sonhava com a mesma todos os dias. Tocá-la, seria o êxtase de sua existência.
- Toque aqui, senhor... Mil... – com a negativa de cabeça ela lançou imediatamente uma segunda – “Mau... – como outra negativa lhe seguisse, ela arriscou a terceira já quase em desespero. – Mar... – como Marcos sorrisse, ela completou triunfante - ..celo. Marcelo...
- Ma...MI...Mo...Marcos, dona Hee...leee...na. Marcos Luiz Pereira...
- Já sei... já sei.
Talvez a nova falha técnica tenha arrefecido o desejo do verme, mas a verdade é que ele não a tocou. A bela Helena, empertigou-se. Pelo jeito, a coisa ia ficar difícil de desencadear. O cara era um zero a esquerda.
- Ui, como dói. O senhor poderia massagear, para ativar a circulação.
O coração de Marcos disparou. Instintivamente ele levou a mão que possuía todos os dedos as ancas daquele fenômeno e lentamente massageou-a. Não poderia de se dar ao luxo de usar sua outra mão. Seria um despedício tátil. O simples toque da epiderme, separadas por aquela saia justa, levou o pobre Marcos Luiz ao orgasmo prematuro. Foi quando Dona Heleninha, tomada por todas estas dilacerantes dúvidas vislumbrou a existência de uma garrafa de vinho jogada no banco traseiro da caminhonete. Aquilo poderia ser a solução...
Ajeitou melhor a bunda de forma que o senhor qualquer que fosse o seu nome, não só vislumbrasse todo o material, como tivesse maior área de massagem, à sua disposição. Para sua infelicidade, um carro se aproximou, diminuiu a velocidade e depois de aberto o vidro lateral Helena e Marcos puderam ver um casal no interior do mesmo.
- Vocês precisam de ajuda?
- Se não lheeeeees ca...qui...co... causar maiores trans... trans... trans... tornos. - respondeu Marcos, cuja ejaculação havia lhe manchado toda a calça.
- Logo ali a frente, há um posto policial. Vou passar por lá e pedir para que eles venham lhes dar assistência.
- Obrigagado.
Acenou Marcos, assustando a criança que estava no colo da moça. O conhecimento da existência de uma mão com aquela significativa falta de dedos, deixou o pequeno sem dormir as próximas três noites.
Tanto carro a passar, e tinha que ser logo um pequeno. Aquele não era definitivamente o seu dia. Mas ela, não estava ainda vencida. Tinha que bolar algo rápido, pois, a policia estaria em minutos ali para ajudá-los.
Tão logo, Marcos completou sua volta em torno do carro, ela comentou demonstrando estar trêmula:
- O senhor acredita em destino?
- Connnnfesso que nunca pa...pi...pensei no assunto. Mas poderia a sa...si...senhora me chamaaaaaar Marcos Luiz.
- Só se o senhor me chamar de Helena.
- Hee...leee...na.
- Mauro.
- Ma...Mi...Ma...Marcos, dona Hee...leee...na. Marcos Luiz Pereira da Silva Vasconcellos Vidigal.
- Não importa, Marrrrr...cos. O que realmente vale é que o destino de almas que agora parecem estar unidos. Algo entre nós foi devidamente selado.
Tão embasbacado estava o manco com aquela observação feita por aquela que era a razão de suas ejaculações soníferas e de suas masturbações chuverais, que o peso de seu lábio inferior não pode ser contido e dele caiu uma baba elástica cristalina. Mas agora era hora do cutelo e Heleninha tratou de fechar o seu cerco.
- Pois acredite. Talvez tenha sido o destino que tenha feito nos encontrarmos nestas circunstâncias. Trabalhamos no mesmo andar...
- Eu da...di...di...diriaaaa, que em mesas ane...ane... aneeexas.
- Sim, foi isto mesmo que eu queria dizer. Mas só este acidente nos colocou cara a cara. Não sei nem mesmo como explicar, mas estou excitada.
Excitada. Excitada com que? Com o acidente? Com ele? Marcos Luiz corou e a esperta Heleninha notou. Era hora de dar continuidade a seu plano e partir para o golpe de misericórdia. Heleninha começou a se abanar e abriu dois botões de sua blusa vermelha que deixaram antever seus volumosos seios. Que seios! O mais recôndito de seu ser a centímetros do olho bom do Marcos Luiz. Ele estava boquiaberto. Ensandecido. Completamente tomado pela força de sucção daqueles dois volumes de carne.
- A senhorita a...a...aaaaacredita que uma baaaaatida seja deeeeestino? - perguntou Marcos Luiz, demonstrando estar interessado no assunto, todavia, mais ainda em seus seios.
- Não tenho a menor dúvida Marrr..cos. Acabo de sair de uma cartomante e ela me garantiu que eu iria tropeçar no homem da minha vida. Só não esperava que em circunstâncias como esta. Inacreditável. Nem imaginava que poderia ser logo o senhor que nunca se dignou a prestar a mínima atenção em minha pessoa.
- Dona Hee...leee...na, não diga isto.
- Sim, sempre me senti rejeitada, tal a sua indiferença.
- Acho que a seeeeenhora não na...ni...notou ... - balbuciou ele acariciando o seu queixo. Seu sentimento era justamente o inverso...
- Não tem problema. Sei quando sou rejeitada.
Uma coisa estava agora batendo lá no fundo de seu cérebro. Como a Dona Heleninha tinha tido tempo de ir a uma cartomante, se o expediente terminara a menos de uma hora? Talvez uma vidente Express.
- Acredite-me, foi o destino. Olhe como estou excitada.
E trazendo a mão semi-dilacerada de Marcos, ela a pousou novamente sobre seus peitos que arfavam como os tambores da guarda imperial inglesa. Marcos não conseguia mais esconder seu total descontrole emocional, físico e espiritual, todavia, numa última tentativa de demonstrar algum equilíbrio, comentou na esperanã de não estar vivendo uma irrealidade.
- Eu ta...tinha certeza tammmmmbém que algo de muito especial iria acon...con...ontecer esta noite. Fui pra...pri...pro...pro...proomovido no trabalho, comprei um va...viinho e não tinha com quem comeeeeeemorar.
- Não me diga?
- A sa...si...seeeenhora não sabia?
- Da promoção sim. Meus parabéns. Eu sempre achei que você era a pessoa ideal para o cargo, Miguel... desculpe-me, Marcos? - ele concordou com a cabeça. Ela respirou aliviada e deu continuidade - Só não sabia que o senhor não tinha com quem comemorar. Que desperdício. Um homem tão... tão.. – que adjetivo poderia usar para com aquela coisa? - ... inteligente e capaz como o senhor passar esta noite sozinho. Sua grande noite.
- Mas a seeeenhora sabe o cargo a que... qui... qui... fui promovido?
Ela fora pega de surpresa. Tinha que ser mais cautelosa da próxima vez. Heleninha não era brilhante mas tinha a rapidez e a vivacidade da vagabunda e não deixou a cocada cair:
- O cargo... qualquer cargo... sua capacidade é tanta que pode assumir qualquer cargo. No mínimo gerente geral. Este é a meu ver o mínimo que lhe poderiam oferecer.
Marcos Luiz parecia um pavão. Estava a ponto de explodir tão cheio de si que se encontrava naquele momento. Heleninha, que o dissesse. Era sua fã. Nunca podia imaginar. E se sentia rejeitada... Como sempre as aparências enganavam...
- Pois é, me da...di...deram a gerência geral. Nuuuuunca podia esperar...
Hipócrita, pensou ela. Aquele verme puxava o saco do Fufu desbragadamente de manhã, a tarde e a noite. E do Dr. Isaías, nem falar. Era um baba ovo dos piores. Um verdadeiro capacho. Sem vergonha. Bajulador. Pusilânime. E agora procurava bostejar aquele suposto humilde serviçalismo, na tentativa de esconder a notória importância que vinha com seu cargo. Gerente Geral. Quem diria? O que seria daquela firma? Um caolho, sem dedo, gordo, careca, gago, com meio metro de perna a menos do lado esquerdo, dirigindo cerca de 150 funcionários.
- Comprei até um viiiiiinho para come...come...moooorar.
Aí vinha a cantada, pensou Heleninha que se fez de surpreendida. Hora de se deixar levar.
- Vinho?
- Sim, francêees de quaaaaalidade. Cus...custou-me os olhos da ca...ca...cara.
Para quem só tinha um olho, tudo deveria parecer-lhe excessivamente caro. Todavia, o babaca ainda não vira nada. Quando chegasse a conta do seu carro é que iria sentir o que era bom para a tosse.
- E aonde está este vinho? – se fez ela de desentendida.
- A... a... caqui mesmo no baaa...bi...baaa...banco.
Ela pulou. Como por milagre as lágrimas que a pouco haviam borbulhado de seus olhos cessaram. Heleninha bateu palmas qual uma foca amestrada e sorrindo para sua sardinha gigante demonstrou ser ainda mais linda. Sua luz natural se fez presente. Ela estava pronta para o que desse e viesse – evidentemente preferindo o viesse ao desse - e deixou bem claro, ao abaixar-se para pretensamente consertar algo de errado em sua sandália. E aquelas nádegas iluminaram toda a estrada.
Marcos Luiz não perdeu tempo. Correu e pegou a garrafa de vinho no banco traseiro. Sorte que tinha consigo o presente do Geninho. Grande Geninho. Amigão do peito. Aquele abridor de garrafas era a salvação da pátria.
- Pa...pi...pa...peena que não tenhamos taças...” - comentou ele apelando para o lado romântico da coisa.
- Não faz mal. Faremos dentro da tradição húngara.
- Hunga...ga...ga...ga..raaaa?
- A tradição diz que o homem toma meia garrafa de um só gole e a mulher a seguir. Desta forma fica selada de forma definitiva o relacionamento entre ambos.
Aquilo era mais do que excitante. Aquilo era a maior sensação de sua vida! Ou melhor a única de toda a sua existência até ali. O que mugiria o Mozart, quando visse que tinha uma nova dona? E o Geninho? Como o poderia convencer ao amigo de velha data que estaria tendo um caso com a Dona Heleninha?
- Mas voooocê mesmo não é húnga...ga...ga...ga...ra?”
- Não sou. Na verdade sou de Sergipe. Mas tenho um visinho que é.
Meu Deus, noooordestina! Daquelas que segundo o Geninho, gemiam mais na cama. Sua pressão arterial subiu. Ainda bem que havia tomado o Diovan pela manhã.
Os ruídos das sirenes do carro da polícia já podiam serem ouvidos ao longe. Ora de agir, pensou a salafrária.
- Vamos Mil... Mau... querido... Beba a sua parte de uma só vez.
Era hoje que o Mozart iria dormir trancado na cozinha. Marcos Luiz, trêmulo de emoção, abriu imediatamente a garrafa e tomou de um só gole metade de seu conteúdo como na tradição húngara, passando a garrafa a seguir para a deslumbrante Heleninha. Porém, para a sua surpresa, notou que a amada tampou a garrafa sem tocar em uma gota sequer de seu conteúdo.
- A sa...si...senhooooora não vai tomar? - Perguntou o atônito Marcos Luiz, com o olho restante, esgazeado. Aquele vinho subia rápido. Já escalara seu cérebro.
- Não. Prefiro esperar pela perícia. Creio que eles estarão interessados em usar o bafômetro.