
Grandes leituras são como os rios, seguem seu curso sem aborrecimentos. E terminam no oceano que se torna sua capacidade de conhecimento através dos tempos.
Paulo Francis, o imortal defendor do sarcasmo, uma vez em uma de suas crônicas sobre o comunismo, disse com a rara propriedade que sempre coroou seus ditos, um lembrete que deve ser parte de seu dia a adia: O esquecido quase sempre não deve ser lembrado. Pessoas desinteressantes são o maior exemplo para se aplicar esta teoria. Outrossim, o Paraná, como centro cristório de cavalos de corrida, tem história e esta deve ser contada. E dentro de sua história, o Haras Paraná nunca deve ser esquecido.
Criei com Antônio Claudio Assumpção no Haras Paraná. Ele estava muito perto de chegar a seu fim como área de criação. Na época o dividiamos com Alceu Ataide e Salomão Soifer. Nossa empreitada se chamava Haras Elle et Moi. E ali, mais do que nunca, aprendi a respeitar aquela terra. Conhecer suas inestimáveis qualidades e aceitar seus pequenos defeitos. Mas pouco sei de sua história. Tinha até então conhecimento de seus resultados que não foram poucos. Mas graças a Deus, o que vale a pena não deve ser esquecido e o Zeca Castellano deixa aqui isto bem claro. O haras Paraná não mais existe. Hoje deve fazer parte da área do aeroporto. Mas quem o conheceu não o esquece jamais.
Zeca Castellano, um dos proprietários do Haras Garcez Castellano, publica aqui o primeiro de uma série de reconhecimentos que um turfista como ele deve ter, para com um estado que o criou e o fez amar esta atividade. E inicia justamente com aquele que foi o seu principal marco. Deliciem-se com esta fácil leitura.
Efetivamente, foi o Haras Paraná um marco na criação do PSI em nosso Estado. Sociedade entre Alô Ticoulat Guimarães - médico brilhante atuando na psiquiatria e Senador da República, sendo inclusive o autor intelectual da nossa Lei do Turfe - e Farid Surugi - construtor de sucesso e responsável por várias obras importantes em nosso Paraná - os dois compunham uma grande dupla, onde Alô, se importava com o plantel em geral e Farid com a parte comercial do Haras. Bons tempos...onde a produção era tôda vendida em "suaves" prestações e assimilada pelo mercado, na época voraz consumidor dos produtos do Haras Paraná.
Na equipe Heitor Berleze, um verdadeiro Zéquinha...que tudo fazia e resolvia...que vivia e respirava o respeitado Haras! Ao pé, seu filho Duílio, que com seu "petiço douradilho" cruzava o grande lago, agarrado no pescoço do petiço... para estupefação e encanto, de nós...os filhos dos amigos e clientes, que aos finais de semana, tinham como programa visitar o Haras Paraná, muitas vêzes com produtos comprados já no desmame!
Dos garanhões...o grande Fair Trader, depois Kelelê e em seguida Pinhal, fizeram época! Grandes Prêmios e Clássicos, eram vencidos tanto em Curitiba, como São Paulo e Rio... e Kaki - a pequena notável, verdadeira égua de ferro, ao nosso ver o grande destaque femenino, depois Julipa e Irish Rose, para falar somente das fêmeas! Os machos ficam para serem lembrados pelos leitores, mas Quibor por nós deve ser citado!
Entroito feito, vamos aos fatos!
Foi em 1.983 que tivemos interêsse em adquirir Gran Pardal, garanhão em serviço no Haras, e filho de Pardallo e Fiorentina por Tatán - stamina pura - que nos fêz marcar uma visita ao Dr. Alô! E lá fomos nós - os irmãos Garcez Castellano - conversar! Cézar e eu, desde pequenos íamos ao Haras Paraná, na companhia de nosso pai Francisco Castellano Netto, que além de amigo do Alô e Farid, era também cliente do Haras e muito parecido no semblante - ambos eram calvíssimos - com o Dr. Alô!
Recebidos com a fidalguia, seriedade e educação que lhe era peculiar - Senadores da República na época eram assim - expusemos nosso objetivo e a conversa turfística, seguiu em frente!
Mas, uma coisa nos chamou a atenção! O escritório do Dr. Alô, amplo e bem localizado, tinha um biblioteca imensa e nela publicações turfísticas, pedigrísticas e tôdas as demais ísticas...sôbre cavalos de corrida e corridas de cavalo!!! Extasiados...nos olhamos embasbacados com tanta "matéria" sôbre o que sempre nos encantou - o cavalo de corridas!
O negócio do Gran Pardal...não saiu, mas nós dois saímos de lá com a certeza do "porque" do sucesso do Haras Paraná!
Alô, sabia de tudo o que ocorria no Turfe do Mundo...conhecia tudo sôbre pedigrees e tinha tôdas as informações...nas mãos!
Quando então, lhe era oferecida uma égua, às vezes como pagamento ou parte de pagamento de produtos, e tinha "aquilo" que mais interessava...não tenham dúvidas...o Dr. Alô, não a deixava escapar! E muitas vêzes, fez ótimos negócios agregando "matrizes" que, para aqueles que não tinham o "conhecimento pedigrístico", muitas vezes nada valiam ou pouco valiam!
Enganam-se os que acreditam que o Haras Paraná, não "investia em matrizes"! Alô, "investia em conhecimento" e seu sucesso foi marcante!!!
Sempre acreditou em linhas maternas, que são as molas propulsoras de qualquer Criador!!! Nós que acreditamos também, naquele dia recebemos "aula desta matéria"!!!
Zeca Castellano