Alguém, que não me recordo no momento, disse com grande propriedade que "a poesia está no fato". Eu diria que nos cavalos de corrida a poesia está em seus pedigrees.
Pois é, quando estes atributos "genéticos" são refletidos em pista, temos poesy in motion. E acreditem, todo os demais inputs, simplesmente fundem-se num vórtice de informações desnecessárias. Inermes à luz crua dos simples fatos. Incapazes de o fazer ver a essência da verdade.
Nunca foi fácil se analisar uma prova como o Arco do Triunfo. A própria dificuldade da carreira, diante dos campos formados, por si só determinam um ponto "dificultante", outrossim, como tudo na França, existe um "complicador" a mais. E nas terras de Asterix, como não poderia deixar de ser, eles são dois: Primeiramente o paddock, que além de ser enorme, funciona na verdade como uma arena. Já vi alguns cavalos nele enlouquecerem. Nijinsky foi um deles e Much Better outro. Não que um tenha haver com outro, mas foram os dois que imediatamente vieram a minha mente. O segundo "complicador" é a pista, que varia muito e o pior, em pontos distintos. E aqui não entra aquela basófia que o grande cavalo se supera, pois, muitos são os grandes cavalos todos os anos inscritos, logo, qualquer vantagem dada a um, é um handicap difícil de ser recuperado pelo outro.
Este ano o campo me parecia equilibrado. Não existia um Ribot, um Alleged, um Peintre Celebre, um Monjeu, um Sea the Stars ou mesmo uma Zarkava. O próprio favoritismo de Serafina era relativo. Ela, que deveria ter ganho ano passado, teria que provar estar no mesmo patamar de poderio locomotor, este ano. Por sua vez, o grande nome da temporada, Frankel, parece que até o presente momento, não reúne as necessidades mínimas de poder staminico, pelo menos o suficiente, para ultrapassar a milha e um quarto. Por sua vez, aqueles que tinham e provaram isto, nas duas mais importantes provas inglêsas da milha e meia, Nathaniel e Pour Moi, não estavam entre os inscritos.
Haviam três elementos suplementados. O terceiro elemento, foi a alemã Danedream (Lomitas e Danetrop por Danehill). E acho que foi uma inteligente iniciativa. O fato de nenhum outro elemento treinado na Alemanha ter ganho o Arco desde 1975, quando Star Appeal surpreendeu a todos, não me apavorava. Star Appeal era um britânico de nascimento, mas com seu pedigree germanizado. Diria que Acatenango - o melhor elemento germânico apresentado no Arco - em um outro ano, poderia ter tranquilamente ganho o Arco. Todavia, no ano de Dancing Brave, Bering, Shahrastani e companhia, confesso que era dose... Sua filha Borgia, o teria feito também, se não houvessem as indigestas presenças de Peintre Celebre e Pilsudski. Ela foi terceira. Logo, não é bem por ai, ainda mais que a presente descendente de Nijinsky, de nomes alemães, tinha apenas a partir da mãe de seu pai Lomitas, La Colorada. Mas em contrapartida, uma forte dose de velocidade em sua mãe, a irlandesa Danedrop, produto do cruzamento do sprinter Danehill, no miler High Top. E tudo mais que a descendência de Nijinsky, via seu mais staminado filho, Niniski necessita.
Danedream ganhou em record, e o fez com seu jóquei comemorando, 50 metros antes do disco, por cinco corpos. Só três cavalos o fizeram por mais um corpo do que ela. Um deles foi aquele do qual era possuia um imbreed, o invicto Ribot. Isto apenas confirma o plasma realístico da situação. Sua mãe não ganhou. Sua segunda mãe o fez em apenas uma oportunidade. logo onde está a poesia? Apenas em sua estrutura genética? Na força indiscutível de seu avô materno Danehill? Eu diria que em tudo e principalmente em sua terceira mãe, Lady Berry. Uma pupila de Guy de Rotschild, que a seu tempo provou ser dotada de classe e muita stamina, vencendo os 3,100m do Prix Royal-Oak e os 2,700m do Prix de Pomone, e que reprodutivamente excedeu-se ao produzir a ganhadora do Vermeille Indian Rose, ao ganhador do Ganay, Vert Amande, o vencedor do gran Prix de Paris, Le Nain Jaune e o segundo colocado nesta mesma carreira, Mulberry. Boa na pista, excelente na reprodução. Quando sobre isto um dia deita-se um danehill, o pavio é reaceso.
Mas Danedream, como comentei em meu blog, dois dias antes da carreira, não é apenas um belo pedigree. Terceira na milha e meia do Derby Italiano, e ganhadora a seguir dos 2,200m do Oaks daquele pais, ela somou duas vitórias importantes, em suas duas últimas aparições, nas milhas e meia do Grosser Preis von Berlin e a seguir no von Baden. Não é a toa, que o austero timeform, lhe conferiu a marca de 129, a maior entre os três anos em treinamento na Europa. Ou melhor, a segunda melhor, já que Frankel obteve até aqui 142. Mas há de se convir que este, pertence a uma outra estratosfera...Contra ela, via apenas um fato: nas duas vezes que veio a França, fracassara. A primeira pode se considerar até justificável, pois foi aos dois anos no Prix Marcel Boussac onde foi sexta. Mas na outra, não. A milha e meia do Prix de Malleret em Saint-Cloud, não me parecia um bicho de sete cabeças. E ela não passou de uma quinta colocação, se bem que a menos de 1 corpo.
Tem o direito de escolher entre duas Breeders Cup: a Turf e a Distaff and Filly. Acho que terá melhor sucesso contra os machos, turma esta que nos Estados Unidos está sendo dominada por Capo Blanco, que no sábado ganhou no Super Saturday de Belmont Park, mas diria que com as calças na mão. A surra que teve que levar de Jimmy Spencer, para ganhar por diferença minima, faria este honesto jóquei pegar uma suspenção na Europa se lá a carreira viesse a ser disputada. Mas 10 metros e teria entregue o ouro. Contra as femeas terá que enfrentar a uma adapatada stacelita e a um já provada grande viajante, Midday.
Não é todo dia que um cavalo de corrida vai tentar ganhar a sua décima quinta prova de graduação máxima, principalmente sendo esta, sua última apresentação em sua terra natal. Goldikova estava linda, como nunca esteve. Pingava classe. Com aquela cara de joga em mim!
Largou bem mas teve que esperar por seu pacemaker que não o fizera tão bem, e ainda por cima, se recusou nos primeiros metros a levar avante seu trabalho. Barzalona teve que usar seu chicote em duas oportunidades para assumir a ponta. Peslier, manteve-se na terceira colocação colada nos curvilhões de seu pacemaker e bem juntinho aos paus, como ela gosta. Mas acho queo jovem jóquei, abriu o pacemaker um pouco antes da hora, obrigando Peslier a vir um pouco cedo. Faltavam ainda 500 metros. A descendente de Danzig assumiu a ponta e foi imediatamente atacada por Dream Ahead (Dikdat). Não teve direito a um segundo sequer de paz. A batalha foi espetacular. Cabeça com cabeça. decidida no último centímetro. A 100 metros do disco ela ainda tinha vantagem, mas Peslier teve que se utilizar de seu chicote. Mas para a tristeza do público presente, não o suficiente.
Ela caiu, mas o fez de pé. A foto demonstrou que a descendente de Man O'War obteve uma vantagem quase que mínima. A neta materna de Cadeaux Genereux, deu um presente nada generoso ao grande público que esperava pela consagração de sua heroína e talvez participar de um momento histórico. Sua décima quinta vitória em graduação máxima e assistir possivelmente a duas irmãs triunfar, no dia mais importante de seu calendário turfístico.
O que isto muda na vida de Goldikova? Nada! Longchamp sempre foi uma pedra no casco desta grande campeã. Foi lá que sofreu suas maiores derrotas. Com duas curvas e mais tempo para poder respirar, Goldikova continua sendo o nome a ser batido na Breeders Cup Mile (Gr.1). Embora ela já tenha feito história, se ganhar sua quarta versão, será idolatrada para todo o sempre. Fiquei triste, mas como escrevi antes, ela caiu, mas o fez de pé, como apenas os grandes o fazem.
Dettori ganhou duas provas de grupo e estabeleceu uma grande marca. A de 501 provas de grupo vencidas.
Firmemente acredito que a poesia está no fato. Não na imaginação de fulano ou beltrano. Desculpem a aqueles que assim não pensam, mas é nisto que está consubstanciada a captação do óbvio em qualquer realidade, O resto são enleios ideológicos, que não o levam a lugar algum. Vendo o raio x dos vencedores na Europa e nos Estados Unidos deste ano, no ninho do albatroz, creio que poderão entender a que me refiro.
