Angel Cordero sempre foi para mim um ídolo. Muita gente o rotulava mais para Pinguim do que propriamente para Batman. Não importa. Ele tinha a capacidade de transformar um cavalo e fazer ele correr o que podia e na maioria das vezes, o que não podia. Esta capacidade que poucos jóqueis tem de fazer com que os cavalos doem tudo de si, chegando ao máximo sacrifício de fadiga, em minha concepção, tem apenas uma só explicação: talvez os cavalos sintam distintos respeitos, por quem os dirige. E Angel se impunha.
Angel, nos Estados Unidos, montou de 1960 a 1992. Foram um total de 38,646 corridas. Ganhou 7,057 delas obtendo assim uma sólida percentagem de 18,3% de aproveitamento. Ganhou 3 Kentuckys Derbies, 2 Preakness, 1 Belmont, 2 Oaks e 4 Breeders Cup. Conquistou as estatísticas em três oportunidades e o Eclipse Awards em outras três. O que mais se pode exigir de um Hall of Fame? Apenas algumas respostas.
Morar cerca de Gulfstream, lhe dá a chance de durante a temporada de inverno, fazer alguns contatos. E Angel, conheço-o de longa data. Fiz esta entrevista dias depois de Big Brown, ter estarrecido o publico floridiano, com uma atuação impecável no Flórida Derby. E aqui a apresento, pelo primeira vez, em sua integra.
RG - Angel, antes de mais nada, gostaria de lhe dizer que você é um nome reconhecido no Brasil e para mim, você foi o mais completo jóquei que tive o prazer de acompanhar aqui nos Estados Unidos. Com todo o respeito que tenho por Bill Shoemaker e Laffite Pincay, eu acho que você, dos que tive o prazer de ver ao vivo, foi o que mais me encantou. O acompanhei, já no terço final de sua carreira, todavia tive acesso aos videos de muitas de suas carreiras anteriores. Minha pergunta inicial é simples. Você que é de Porto Rico e aqui se impôs, quando ainda jovem deve ter tido um idolo. Alguém em quem se espelhar. Quem foi este?
AC - Obrigado pelos elogios e é sempre bom saber que em outros países seu nome é reconhecido. Quanto ao idolo, desde pequeno, só tive um nome em minha cabeça, Eddie Arcaro. E até hoje, afirmo, que nunca vi outro melhor do que ele. Na verdade não houve melhor do que ele. Pelo menos esta é a minha opinião. E nos anos que brilhou (40 e 50), as comunicações não eram tão boas como hoje são. Ele provavelmente não teve em quem se espelhar. Talvez isto, o tenha obrigado a criar seu próprio estilo. Que era único e eficaz.
RG - Você tocou num ponto importante. Hoje existem videos e escolas para iniciantes em sua profissão. Naquela época não. Como vocês faziam, para aperfeiçoar sua técnica? Para determinar seu próprio estilo. Acredito que tinha que ser algo natural...
AC - Sim, confesso que era algo que nascia com você. Pelo menos assim o foi comigo. Meu pai foi jóquei e treinador. Todos os meus tios treinadores. Estava nos gens e também em minha formação como menino. Fui criado no meio dos cavalos. Mas isto é apenas o começo. Você tem que progredir. E é ai que entra a importância dos treinadores. Os mais experientes e pacientes daquela época, me ajudaram a desenvolver-me. Eles tinham mais tempo. Treinavam menos cavalos. E, sempre que possível, tentavam lhe ensinar coisas que haviam observado em suas carreiras. Hoje, como você bem disse, alguém pode se formar como jóquei e criar seu próprio estilo, adapatando-o à toda informação que chega a você. Que não é pouca. Antes não.
RG - E os treinadores não têm mais tempo de se preocupar em formar alguém.
AC - Eles tem que dar o resto de seu tempo a seus clientes. E ainda existe a familia. Na minha época um bom barn tinha 40 ou 50 cavalos e no máximo três proprietários. Quando os tinham. Hoje, são 300 cavalos e 40 distintos proprietários. Não há mais tempo para nada. Time is money.
RG - E se você como treinador não tiver tempo para treinar seus proprietários, os perde.
AC - Por isto treinei por algum tempo e mudei meu rumo. Não sei treinar proprietários, já que nunca fui um deles. Prefiro ser agentes de jóqueis. Estes sim, os posso ajudar.
RG - E treinar.
Ele sorriu de forma maliciosa.
RG - E como você fez em Porto Rico?
AC - Sempre procurei gente que me pudesse ensinar. Hoje falo muito. Naquele tempo ouvia muito.
RG - Angel você viveu intensamente os anos 70, a década de ouro do cavalo de corrida norte-americano. Nesta época você montou e enfrentou os melhores cavalos que este pais criou. Hoje já não se criam cavalos como estes e quando existe a possibilidade de confrontos, como Sunday Silence e Easy Goer, eles se enfrentam poucas vezes. Três ou quatro, no máximo. Não dez como Affirmed e Alydar. Na sua opinião, o que está acontecendo neste pais.
AC - Não tenho condições de falar nada sobre criação. Mas sobre as corridas diria que a começar das preparatórias para o Derby, neste tempo a que você se refere, só havia cinco carreiras de grande porte: o Flamingo, o Florida Derby, o Blue Grass, o Wood Memorial e o Santa Anita Derby. Hoje como todos querem participar do derby, são utilizados diferentes caminhos. O importante passou a ser classificar, e não mais testar a qualidade do seu cavalo, no confronto com outros de seu calibre. Por sua vez existe muito dinheiro na sindicalização dos realmente bons para a reprodução. Logo, eles não ficam por muito tempo na pista. Eu diria que os turfistas de hoje, não têm mais a oportunidade de ver heróis, como nós o fazíamos. Não há tempo sequer de se criar controvérsias. A imprensa perdeu muito com isto também.
RG - Em se tratando de controvérsias, você talvez tenha sido entre os grandes jóqueis o que mais vezes esteve envolvido em controvésias. Me fale de Codex e Genuine Risk naquele famoso Preakness de 1970.
AC - Se ela não fosse uma potranca, não estariamos aqui falando sobre isto. Ela ganhou o Derby e passou a ser a menina dos olhos de todos. Imaginem se ganha a triplice coroa. E olha que esteve perto, pois, foi segunda no Preakness e no Belmont Stakes. Ela era extraordinária. Mas eu tinha que fazer o meu papel, que era de ganhar. Mas para que isto acontecesse eu teria que primeiramente não deixá-la ganhar. Eu sabia que ela viria para cima de mim já no início da reta e por fora. Por isto antecipei-me. Deixei Codex abrir e a levei para fora. Não houve contato. Mas queria deixar claro que ambos perdemos terreno. Acho que meu cavalo ganharia de qualquer forma. Mas parece que para os outros não, pois, a queriam ver ganhar. E quizeram me crucificar.
RG - E no caso de Spectacular Bid?
Ele soltou uma gargalhada.
AC - Nesta quizeram criar uma razão para a perda de uma terceira triplice coroa consecutiva. Seattle Slew, Affirmed e Spectacular Bid. E a seguir Genuine Risk. Era tudo que o mercado queria. Eu eu era sempre o primeiro indicado, quando uma polemica se tornava necessária. Eu sei que fiz Ronnie (Franklin) correr antes da hora. Ele era inexperiênte, mas de maneira alguma pode se imputar a causa desta derrota a ele. O cavalo era limitado na distância e Bud (Grover G. Bud Delp) teve problemas na semana com ele.
RG - O prego no casco?
AC - Exatamente. Bid era um fenômeno e provou isto na temporada seguinte. Talvez tenha sido junto com os de meu tempo, Secretariat, Slew, Ruffian e Affirmed, um dos melhores. Ele perdeu por um conjunto de fatores. E não fui eu, Ronnie ou mesmo Coastal ou Golden Act que chegaram a sua frente as causas de sua derrota. Sua inabilidade de chegar a distância e os problema que teve que enfrentar na semana, foram as verdadeiras causas de sua derrota. Mas sempre foi mais fácil se acusar Cordero.
RG - Mas Ronnie Franklim o acusou de interferência.
AC - Como disse Ronnie era inexperiênte. Dias antes, em Belmont (Park), tivemos um atrito na sala de jóqueis. Ele estava sendo excessivamente pressionado, porque todos o achavam o calcanhar de Aquilles de Bid. Sabia que quando perdesse, seria barrado. Queriam sua cabeça a todo custo. Quando perdeu a triplice coroa, não teve mais dúvidas, que seria crucificado. Iriam pedir a sua cabeça e ele quiz achar uma desculpa. Apenas tentou me levar com ele.
RG - Ele estava a altura de Bid?
AC - Como eu em relação a Iron Ruler, ainda não.
Lembrei-me do caso Iron Ruler.
CONTINUA AMANHÃ


