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sexta-feira, 23 de março de 2012

PAPO DE BOTEQUIM: PROBLEMAS QUE POUCOS QUEREM ENXERGAR

Não sei se me farei entender. Outrossim, pelo menos tentarei. Portanto, tenham paciência e me dêem tempo de chegar onde eu quero chegar. Aceito o desafio, vamos adiante.


Dar um destino a um potro inédito que tenha demonstrado qualidade em seus primeiros trenamentos, não é nada fácil. Diria que é como criar um filho,  desenhar uma moradia, plantar uma árvore ou mesmo escrever um livro. Há de se ter conhecimento, mas não apenas isto. Necessita-se igualmente de mente aberta, imaginação fértil, equilíbrio, uma dose de fantasia e acima de tudo uma ferrenha disciplina "flaubertiana". Pois bem, eu escrevi livros que foram publicados e uma série de outros que não. Mas isto não me faz um expert no treinamento de cavalos de corrida.


Um dos livros que li, quando ainda jovem, foi A Cidade e os Cachorros de Mario Vargas Llosa. Este mesmo livro, que fez dele um escritor e a mim de desejar ser um, foi um marco em minha existência. Eram o final dos anos 70. Sentia-me ainda um jovem em formação. Deslumbrei-me não só pela história, como também pela forma pela qual ela foi contada. E foi ali que aprendi, de uma vez por todas, que escrever é saber contar uma história. 


O tempo me levou ao turfe e então descobri que não existem maiores contadores de histórias que vários treinadores, principalmente no turfe sul-americano. O problema é que muitos destes não sabem escrever um livro e no caso particular de alguns, nem mesmo treinar um cavalo da maneira que eles deves ser treinados. Mas sobrevivem por fazerem parte de uma gama distinta, a do treinadores de proprietários.


Os treinadores de proprietários, muitas vezes se valem de assistentes, pois, se assim não o fosse, não teriam o tempo suficiente de treinar àqueles que bancam os cavalos e pagam suas contas: os proprietários. E com isto podem se dar ao luxo de ter 100, 150 cavalos em treinamento. Quando um dos cavalos chega ao ápix, imediatamente os outros 149 são imediatamente esquecidos. E aqueles não bafejados  pela sorte, esperam por sua vez, na esperança de que na próxima leva seja ele o agraciado. Pois, vou lhes dizer uma coisa. Sorte é sempre necessária, mas não é ela que permanentemente dita, os tramites de se chegar ao winners circle.


Um bom cavalo de corrida é que nem um diamante bruto. Primeiramente tem que ser reconhecido, não apenas achado. Depois convenientemente lapidado por quem entende do assunto e finalmente colocado na vitrine, de forma que alguém o note, o adquira e o desenvolva. Infelizmente com o sucesso financeiro que  o mercado de cavalos de corrida hoje trás para quem nele investe, principalmente no hemisfério norte, estes diamantes não estão sendo lapidados da forma que deveriam ser, pois, o som do martelo em um Tattersall se tornou mais eloquente, que o do locutor em um hipódromo anunciando a vitória de um crioulo seu. Esta é a mais pura verdade. Não vê, quem não quiser.


Não se colocam em pista cavalos como se colocavam anteriormente. Em se tratando de Estados Unidos o problema é o que me parece mais alarmante. Afinal, como gerar a um Hail to Reason que aos dois anos se sagrou campeão, vencendo 8 de suas carreiras? Ou mesmo um Dr. Fager, que ganhou 18 de suas 22 provas, tendo que enfrentar entre outros a Damascus e Buckpasser. E o que dizer de Seattle Slew, Secretariat, Affirmed, Spectacular Bid e tantos outros?


Na Europa, sinto o problema com menor gravidade, já que Sea the Stars, Zarkava, Frankel, para se utilizar de exemplos recentes, nada devem, a meu ver, aos antigos. E existe uma razão para que isto aconteça: pedigree somado a um maior cuidado no treinamento inicial, por parte dos treinadores locais.


Pudera! O conhecimento de uma grande faixa de treinadores brasileiros está restrita ao que aprenderam de seus pais e aos quatro muros que cercam o hipódromo em que apresentam seus pupilos. Não existe, para a grande maioria um universo maior de comparação. Algo que sirva como parâmetro para ele saber a verdadeira qualificação locomotora de seu animal. Poucos foram os que viajaram, menos ainda que trabalharam com gente qualificada de outros centros turfísticos. E nas mãos destes, mesmo se levando em consideração que a grande maioria seja nem intencionada, está a sorte de nossos investimentos. Sorte esta que se minimiza quando jóqueis assumem a responsabilidade.


Disse e repito, o jóquei brasileiro funciona melhor fora do Brasil do que na terra em que nasceram. O sucesso no exterior de Silvestre de Souza, do Moreira, do Nunez, do Ricardinho, do Rosa, do Domingos, do Cruz e de tantos outros, é a maior prova do que acabo de afirmar. Logo, não devemos analisar seus possíveis problemas no âmbito da qualificação profissional de cada um, e sim pelas parcas condições que damos a eles para desenvolverem aquilo que podem desenvolver.


Será que isto se aplicaria também em relação a nossos profissionais de treinamento? Não precisariam eles terem experiências externas para aqui voltarem e estabelecerem novos parâmetros? O que fazer para mudar esta situação?


Vamos nos abster de gostos pessoais. Entre os treinadores que vi trabalhar, quando no Brasil residi, creio que o Cabrera, o Alvani, o Mário Campos, o Guignoni e o João Maciel, foram os que mais me impressionaram com seus métodos e resultados. E diria, que tirando o último, os demais apresentavam a meu ver uma coisa em comum: falavam pouco. Ou quase nada.  Todavia, não tenho o menor temor de afirmar, que todos estes cinco tinham uma sensibilidade acima da capacidade humana de entender os equinos. Logo não precisariam viajar, nem muito menos fazer um estágio com quem quer que fosse. Não posso falar dos anos 90 para cá, pois, afastei-me fisicamente do Brasil. Devem haver outros. Quem os identificar, os prestigiem.


Eu estava semanas atrás em Cidade Jardim, quando vi um cavalo ganhar e ouvi do treinador a seguinte frase: este nos Estados Unidos não perde de ninguém. Confesso que examinando o passado do cavalo e a forma como ele acabara de ganhar, não encontrei subsídio algum que me fizesse crer, que o eufórico treinador estivesse coberto de razão. Ai me pus a pensar. Em quais parâmetros técnicos ele estava se baseando para afirmar tamanha barbaridade? Creio que nenhum. Foi exatamente neste momento que tive a ideia de escrever este artigo.


Tenho dois potros sob minha responsabilidade para iniciar aqui nos Estados Unidos, nesta temporada. Um macho, já com três anos a completar, de pedigree e envergadura típica de um elemento de fundo e tardio.  Ninguém é tardio por que quer. O tardio é um elemento que tem sua complexão física - principalmente a interna - com maior tempo para completar sua formação. Por isto, custa a entrar em sua verdadeira forma e encontrar seu próprio caminho. 


O outro é uma potranca de dois anos, que já está a semanas de estrear, pois, por pedigree, físico e forma de se mexer demonstra ter precocidade e velocidade.


Forçar a barra e tentar fazer dele um elemento precoce e veloz, ou dela um elemento de fundo e para a segunda campanha, é dar um tiro no pé. E já que falamos disto, muitos tiros no pé tenho observado, serem dados no Brasil com cavalos de fundo estreando em distâncias para velocístas, da mesma forma, que no sentido contrário: Cavalos estendidos sem ter o pedigree, a complexão e a forma de atuar condizentes necessárias para um elemento de stamina. O mesmo se aplica a precocidade. Ai me ponho novamente a pensar. Em quais parâmetros técnicos estes treinadores se baseiam para levar avante tamanhas barbaridades? Creio que nenhum.


Não temos no Brasil a suprema vantagem de escolher nossos adversários. Quando há uma carreira de grupo, a turma toda cai de cabeça. Nos Estados unidos, devido a pujança de hipódromos e chamadas, os cavalos de melhor nível apenas se encontram nos embates maiores. Já expliquei isto aqui mesmo. Por exemplo, existem várias veredas para se chegar ao Kentucky derby. Union Rags, corre este fim de semana o Florida derby em Gulfstream Park. Assim seus dois mais ferrenhos adversários, não estarão presentes. Hansem irá para o Blue Grass em Keeneland, enquanto as conexões de Alpha optaram pelo Wood Memorial de Aqueduct. Isto se chama, ato de preservação. Como não temos estas opções, devemos mais do que nada escrever nossos cavalos nas carreiras certas, pois, cada uma, é menos uma na curta vida atlética de um cavalo de corrida.


Acho que este assunto é algo a ser pensado.