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quarta-feira, 28 de março de 2012

PAPO DE BOTEQUIM: UMA NOVA FORMA DE VELOCIDADE TRAZIDA PARA O BRASIL


Deve ter sido muito dificil para Wiston Churchill obrigar seus soldados a por a pique todo e qualquer navio da frota de guerra francesa, quando a queda da França no final dos anos 30, era vista não mais como uma possabilidade e sim uma realidade.  A frota  naval alemã era débil logo a francesa seria de suma importância se os planos de Adolf Hitler, fossem o de invadir a Inglaterra pelo mar.
Como explicar a estratégia adotada por Hannibal em Cannae, durante a segunda Guerra Punica, quando chefiando pouco mais de 56,000 homens, destruiu o bem treinado exérciro romano formado por quase 90,000 homens, oferecendo para tal em sacrificio, o centro de suas tropas e numa manobra até hoje considerada como a mais bem engendrada em um batalha, a cercou, imobilizando com isto, o muito maior número de inimigos no centro, sem que estes pudessem lutar e desesperando-se ao acompanhar linhas as sua frente, caíndo uma por uma, a espera de sua hora.


E o que dizer de Beethoven compor suas últimas obras já sem poder ouvir, usando apenas as lembranças ainda existente em sua mente de sons que fizeram a sua vida. Pensem na responsabilidade de se compor uma sinfonia sem a ajuda do ouvido e enfrentar a plateia altamente sofisticada de sua época. Mas a nona talvez tenha sido o maior de todos os seus sucessos. 


Todos são grandes desafios que tão somente serão vencidos por intermédio de decisões.

Eu não sou homem de pencas. As respeito, mas até agora confesso que não as entendo. Logo, para mim foi uma agradável surpresa ver que alguém enfronhado neste mercado importou o mais veloz cavalo do universo para fazer parte de um criatório até ali, fechado em Flying Boys, Gaianos, Taminos, Light Horse Harrys e outros cavalos de terceira categoria, mas que ditavam o que havia de melhor até ali, em termos de velocidade para distâncias reduzidas. O cavalo a que me refiro é Artax. 


Alguém pode perguntar o por quê, desta minha agradável surpresa? Se ninguém perguntar, respondo da mesma forma. No meu pobre raciocino de homem de prado, se você trouxesse cavalos do nível de Artax, dotados de verdadeira velocidade - aquelas que podem se transmitir através da distância - e o levasse a cobrir éguas de bom pedigree e não mais aquelas éguas estranhas, de pedigrees exotéricos, muitas vezes nebulosos e de nomes inusitados, as chances de se ter uma melhor velocidade seria maior. Eu tinha em Cats Night (Preta do Mangueirão), um exemplo em minha própria carne. A criei, senti que fisicamente ela poderia ser dotada de velocidade e principalmente tenho hoje a consciência que Slap Jack, seu pai, não foi em pista, nem um resquício de sombra do que foi Artax. Logo, o que o veterinário Adriano Quadros e seu grupo fez foi de puro bom senso. E isto somado ao fato de estarem constantemente melhorando seu plantel, com éguas advindas de grandes Haras, simplesmente irá coroar o esforço despendido. Não tenho dúvidas sobre este fato.


Sem querer puxar o saco do Camil, o que o Ponta Porã fez, ao adquirir éguas décadas atrás nos Estados Unidos e as faze-las serem cobertas com cavalos consagrados em pista, o levou a posição de importância que ora goza, tanto dentro do mercado de canchas retas, como nos hipódromos oficiais. 


Não sei se Artax será um monstro nas pencas com filhos destas últimas éguas. Outrossim, com certeza ele irá contribuir para construir uma base de uma "verdadeira velocidade", que não se retringirá, apenas ao pequeno mundo das canchas retas. Desculpem em afirmar sobre aquilo que não entendo. Todavia, bom senso é bom senso em qualquer atividade. Até na comercialização de pinícos. Ademais Cat's Night é outro exemplo disto.  Ela não só produziu, como suas filhas e netas estão demonstrando esta mesma capacidade de produzir no prado elementos graduados classicamente. Isto não é uma opinião. Isto é um fato! Quem não gostar, que mude de canal! Assim sendo, volto a frisar um ponto que sempre defendo. Ninguém pode bater constantemente um raciocínio lógico. Que neste caso é quase quântico... Uma vez sim, duas talvez, mas três, impossível!


Soube que os filhos de Artax foram muito bem recebidos nas primeiras vendas de seus potros no Brasil. Não os vi, mas sei que neste mercado de pencas, o otário nem chegou a nascer.  Desta forma, há fundamento. Acho isto formidável, pois, creio que um dos pontos que temos que nos desenvolver em termos internacionais, é o tocante a velocidade. Carecemos dela a nível internacional. Não creio termos ganho nada de suma importância no hemisfério norte. Nem mesmo na vizinha Argetina. Pico Central provou ser a exceção. Mas ninguém vive de exceções.  E aqui entre nós, em termos de velocidade, Artax era para mim,  inigualável: era o número 1.


Volto a repetir, nunca foi amante das corridas para sprinters, e creio que a Breeders cup que mais me impressionou foi aquela em Belmont Park, que Dayjur pulou a sombra em duas oportunidades, e acabou perdendo uma carreira sem nome para Safely Kept. O ano foi o de 1990. Outrossim, houve uma que fiz questão de assistir e até jogar. Foi a de 1999 em Gulfstream Park. Dela nunca mais me esquecerei. Mas vamos por partes.


Vi Artax se desenvolver como cavalo de corrida, desde o seu inicio. Tinha um cavalo em treinamento em seu barn. Ambos eram da mesma idade. Ele - Artax, não o meu cavalo - pintou ser um assombro aos 2 anos e chegou a ser levado  a ganhar duas provas graduadas de 1,700m em Santa Anita aos 3 anos. Era artigo de primeira linha, mas sua verdadeira vocação ainda não descoberta. Como exalava classe, chegou com sucesso a meia distância. Em sua preparação para o Kentucky derby foi terceiro colocado nos 1,800m do Santa Anita Derby (Gr.1) para tempo record da prova, perdendo apenas para Indian Charlie - que veio a ser o favorito da grande carreira de Churchill Downs - e para Real Quiet - que ganharia a prova -, ambos pupilos de Bob Baffert. Que para quem não sabe acaba de ser hospitalizado em Dubai, onde sofreu um ataque de coração. Melhor para ele - o Artax, não o Baffert. Trazido para a velocidade se tornou um dos cavalos mais impressionantes que tive o ensejo de colocar meus olhos. Exagero? Não creio. Imaginem que ele em 1999, aos 4 anos na plenitude de seu desenvolvimento físico,  dominou a velocidade norte-americana, ganhando os 1,400m do Vosburgh stakes (Gr.1). Na mesma distância em Aqueduct, o Carter Hcp.(Gr.1) em 1'20"04 e com isto varrendo dos programas, um record que parecia ser impossível de ser batido, até então de posse de Dr. Fager desde 1968 - 21 anos antes - de 1'20"20.


Parênteses. Para quem possa não saber, Dr. Fager bateu quatro records. Os dos 1,800m  e os 2,000m de Rockingham Park, respectivamente 1'48"20 e 1'59"80, neste último batendo a In Reality;  o da milha de Arlington Park, 1'32"20 que é considerado mundial  e o citado anteriormente. Logo, não era um cavalinho qualquer. Um cavalo capaz de bater a outros Eclipse Award winners, como ele, do quilate de Buckpasser, Damascus, Fort Marcy e Gamely. Fecha parênteses.


Mas voltemos a ele. Artax nos 1,200m do Forest Hill Hcp. (Gr.2), estabeleceu um novo recorde - 1'07"66 -  para a distância dos 1,200m em Aqueduct, achatando a marca de outro Eclipse Award winner, Groovy que em 1987 - 12 anos antes - estabelecera a marca de 1'07"80. Artax me fez crer que ele não corria contra os adversários. Corria contra si próprio.


Não via como Artax pudesse perder aquela Breeders Cup, em 1999, mesmo que para com isto tivesse que derrubar um velocísta especializado e de alta periculosidade como Kona Gold. Pasmem, ele não abriu como favorito e ainda pagou 9,4 por cada 2 dólares jogados. Aberto o starting-gate, Artax que corria por dentro teve que gastar 300 metros para igualar a linha de Kona Gold e jã na entrada da reta assumia a posição. 22" e 44". Tudo cravadinho. Na entrada da reta, a macacada veio toda, mas ninguém foi capaz de desafiar a supremacia de Artax e Kona Gold, separados por algo similar a meio corpo.


Sem exageros, mas para mim foi um roubo a mão armada. Não sou jogador e muito menos em provas de velocidade, mas naquela oportunidade sai dali e fui ao melhor restaurante de Miami. Ele pagou minha estadia na Flórida e me deixou a certeza que um dia nos encontraríamos mais uma vez. Imaginem, ele não só ganhou em record para a prova, como da mesma forma  igualou o da pista, que era posse desde 1974, de um tal de Mr. Prospector. Acho que a maioria sabe de quem se trata... Marca de 1'07"04. Para se ter ideia, Kona Gold que lhe vendeu claro a derrota naquela tarde, voltou no ano seguinte e ganhou a mesma carreira, de ponta a ponta.


Dá para se dizer que Artax era um cavalo qualquer? Desculpem, mas não dá. Mesmo os detratores do óbvio hão de convir que sua velocidade era sobrenatural. Como é facilmente notável, eu nutria por ele uma verdadeira paixão. Tanto que tentei importá-lo para São Paulo, para fins reprodutivos, mas uma proposta melhor advinda do sul do Brasil, me tirou Artax das mãos. Eu havia trazido antes a Tiger Heart, que era um cavalo de extrema velocidade para o Paraná e achei que seria de bom alvitre ter um upgrade em se tratando de São Paulo. Nunca o Brasil tivera acesso a este tipo de velocidade. São paulo sempre aceitou bem reprodutores norte-americanos do tipo voluntarioso, Earldom, Tumble Lark, executior, named...  E São Paulo, como o maior depositário de stamina de nosso criatório, merecia esta indução de extrema velocidade em seus pedigrees. Mas perdi a parada. No entanto fiquei feliz, que pelo menos alguém que entendia de velocidade sacou o bom negócio que seria trazê-lo para o Brasil.


Decisões são difícies de serem tomadas. Churchill, Hannibal e Beethoven que o digam. Porém, guardadas as devidas proporcões a prematura morte de Artax obrigou a aqueles que acreditaram em Artax a ter outra: substituí-lo. Substituir um cavalo como Artax, me parece difícil. Ele era único. É como se tentar comer um abacaxi sem descascá-lo. Eu disse difícil, mas não impossível, pois, parece que os responsáveis pelo Santa Tereza do Bom Retiro, eu outra decisão de peso, não mediram esforços e estão trazendo para esta temporada outro Eclipse Award winner Sprinter, como Artax, chamado... bem não estou autorizado a revelar...


Cavalos de carreira não devem comparados se não correram numa mesma carreira. Muita mais, quanto corridos em épocas distintas, mas que este que parece que está vindo corria, realmente corria. E muito, diga-se de passagem! E sabem por que? Por que ele foi também um Eclipse Award winner Sprinter. Logo,  ele demonstrou supremacia, e num pais direcionado para a velocidade, como os Estados Unidos é, o fato se torna ainda mais importante.


Existe uma diferença - a meu parecer enorme - entre um ganhador de grupo 1 e um Eclipse Award winner, pelo menos aqui, nos Estados Unidos. Um cavalo pode ganhar uma prova ou duas de suma importância, mas se não é elegido como Eclipse Allowance winner, sempre deixará em sua sombra, a desconfiança daqueles que nele não votaram (imprensa altamente especializada), como que um "achador" de carreiras. Se alguém no Brasil concorda ou discorda, não é problema para mim. O que interessa é que o conceito deste award por aquié este.