Heleno terminou seus dias em um sanatório para doenças mentais. Foi, sem dúvida alguma, atribulado seu final. Era uma craque dentro das quatro linhas. Um galã fora delas. Outrossim, isto não o livrou do final que teve. Ontem tomei conhecimento das noticias que hoje o mundo turfístico acercou-se, acredito eu, com com total perplexidade: a detenção do treinador aposentado Antônio Alvani, acusado de estar sendo acometido de pertubações mentais.
Não sei quais as razões que estão levando o Alvani a tomar as atitudes que está tomando. O que sei é que ele foi um dos maiores treinadores que tive o ensejo de acompanhar em minha vida profissional. Um homem capaz de fazer Al Arz (foto anterior) se manter inteiro nas pistas, quando ninguém o conseguiria. Mesmo o Paulinho Lobo, com todo o cuidado e conhecimento que sempre lhe foi peculiar, não o conseguiu. Um homem que levou um cavalo como o Gorylla (foto seguinte), a quase ganhar o Brasil e o São Paulo - não o conseguindo em ambas oportunidades, única e exclusivamente, por total imperícias daqueles que o montaram - e quando teve o ensejo de contar com os serviços do Ricardinho, desbancou a todos no Pellegrini. Que carreira ganhou em San Isidro. Trazido para os Estados unidos, ninguém conseguiu fazer Gorylla correr o que corria nas mãos do Alvani. Era um cavalo dificil de se treinar. Quase impossível.
Um homem que pegou um cavalo com sérios e visíveis problemas no joelho como Eyjur, e o tornou num dos mais importantes milheiros da história do turfe paulista. Fora de suas mãos, Eyjur foi incapaz de reeditar aquilo que fora capaz de fazer em pista, quando aos cuidados do Alvani.
Um homem que chegou para um cliente seu e o aconselhou a se utilizar de um cavalo chamado Acteon Man (foto que se segue) em termos reprodutivos, afirmando ter sido este o melhor cavalo que treinou em sua vida, mesmo não tendo conseguido o provar em pista, a não ser naquela celebre vitória, onde bateu a um ganhador do Pellegrini, o já citado Gorylla e a um ganhador do GP. São Paulo, Gene de Campeão, justamente na distância que consagrou a ambos. Resumindo, saído das mãos do Alvani, poucas, para não se dizer nenhuma, eram as chances de um cavalo melhorar sua performance.
Este era o Alvani que conheci, admirei e sempre tentarei manter em minha mente. Com sua vasta cabeleira branca, sua camisas coloridas, suas gravatas inusitadas. Carismático sem precisar ser, pois, pouco falava, todavia quando falava, valia a pena ouvir, pois, algo invariavelmente, podia se aprender.

Alvani, iniciou sua carreira no Rio Grande do Sul e terminou-a em São Paulo, onde veio a ser um dos mais respeitados treinadores de seu tempo. Tinha uma maneira distinta de trabalhar seus cavalos. As vezes eu quebrava a cabeça para tentar a entender. Ele mesmo não sabia como explicar. Puro sentimento. Como pessoas como o Cabrera, o Mario Campos, o Dulcidio Guignone, o João Maciel. Mas ele o fazia de sua forma. E com certeza, seus pupilos, eram sempre dotados de stamina e terminavam com uma aceleração final incomum.
Aposentou-se e ajudado por dois de seus ex-proprietários passou a viver sua outra vida. Modesta e reclusa. Em anos foi esquecido e agora seu nome volta a voga, de uma forma, para mim, inaceitável.
Muito fácil é se esquecer dos ídolos. Sejam eles equinos ou humanos. Esta é uma característica humana. E o fazemos, mesmo com aqueles que de alguma forma, moldaram no mais alto nível, o espetáculo que nós tanto amamos. Lembro-me do telefone do Aluízio tocando, minutos após Belo Acteon ter ganho o Grande Prêmio Brasil. Era o Alvani, alegre como uma criança, vibrando como na Gávea estivesse. Ele estava mais uma vez certo. por ter indicado o Guignoni ao Aluízio, bem como o Acteon Man.
Penso que o Jockey Club de São Paulo deveria tomar as dores do Alvani e o ajudar a erguer-se, pelo tudo que ele representou nos anos que trabalhou em Cidade Jardim. desculpem, mas um idolo não pode ser relembrado, por noticias como esta que tomei conhecimento pelos jornais. Fecha o pano!


