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quarta-feira, 30 de maio de 2012

O LEÃO NÃO GOSTOU


Desculpem a franqueza, mas não foi criada ainda a versão da história confiável, fiel, completa. Desde a criação do mundo, ao comovente discurso de um senador que com a maior cara de pau, ontem afirmou à frente de seus colegas, com olhos marejados em lágrimas, que não sabia que o senhor Cachoeira era contraventor, que existem versões diversas à um mesmo fato. Quem um dia teve o privilégio de assistir ao filme japonês Rashomon sabe exatamente ao que estou me referindo. 

Como diria Oswald de Andrade "a verdade é sempre a realidade interpretada". O que isto significa? Que cada um interpreta da maneira que vê, que sente, que assimila. Quem estará certo? Depende da interpretação de cada um. Mas uma coisa é certa: nunca devemos nos afastar muito da realidade, por mais engenhosas que sejam nossas expectativas. É o que chamo do tal distanciamento cerebral, muito próprio em detratores do óbvio.

Logo, seja na descrição de uma corrida ou na leitura de um pedigree, a interpretação de cada um é o que vale. Por isto antes de ler  a opinião dos outros, prefiro primeiro conferir o fato, seja in loco, via tv, ou mesmo mais tarde com o auxilio do video. Tiro minhas conclusões, escrevo o que acho e só então passo a ler o que outros analistas disseram ou não disseram sobre o que já interpretei. Só assim posso ter certeza que cheguei a minha verdade, que pode não ser a de todos, - como na maioria das vezes não o é - mas, pelo menos, é a minha verdade. E creiam, visões de um mesmo fato, analisadas de diversos ângulos, podem ser completamente distintas. As vezes, diametralmente opostas.

Outrossim, o absurdo tem que ser visto de uma outra forma. Nada é absurdo por acaso. A diferença entre ficção e realidade tem que estar bem definida na mente de cada um. E é, sobre um destes absurdos - reflexos muitas vezes fiel do turfe brasileiro - que gostaria de tecer algumas opiniões. 

Pois é, um fato que me deixou com a pulga atrás da orelha foi o recente recorde dos 3,000 em Cidade Jardim, obtido por Gambler, no fim de semana mais importante do turfe daquelas plagas. Que felizmente agora, foi definitivamente desvendado com a descoberta do posicionamento errado do partidor. Desculpem, mais foi um papelão! Escrevi aqui que achara supreendente o tempo obtido pelo vencedor. Conferi com o Adolpho, que teve a pachorra de cronometrar e constatar que o erro não era do relógio. Afinal, para quem conhece um pouquinho da história de nosso turfe, estava mesmo difícil de acreditar que Gambler pudesse ser tão melhor do que Gualicho ou que a pista de Cidade Jardim tivesse através dos anos, mudado tanto.  Aliás diga-se de passagem, não era apenas Gambler que demonstrara ser melhor do que Gualicho: Gambler e a méia dúzia que com ele haviam abaixado o recorde. Mas felizmente o erro foi detectado. Outrossim, óbvias pergunta tornam-se necessárias. Se o starting gate estivesse na posição correta o resultado da carreira seria o mesmo? Como ressarsir os possíveis lesados? Estamos ainda brincando de turfe?

As vezes penso que sim. Preocupamo-nos com tantas coisas superfulas e nos esquecemos de colocar o starting-gate no lugar que deveria estar. Espero que pelo menos continuem colocando o starting gate, pois, pelo andor da procissão, pode ser que um dia se esqueçam do mesmo...

Não creio que este absurdo fato possa vir a acontecer este fim de semana em Belmont Park ou Epson em seus dias mais importantes. Posições apátridas de onipresença dominadas pela aparência, não combinam, de maneira alguma, com o profissionalismo hoje necessário.  Se acontecer, tenham certeza que cabeças rolam e processos zumbem no ar.

Não sei sequer quem é o chefe da comissão de corridas em Cidade Jardim. Só penso que ele deveria saber exatamente as marcas das distâncias, pois, isto é peça fundamental para a credibilidade naquilo que esta casa de jogo, vende: lisura. Este acontecimento sinistro, desculpem, mas o leão não gostou. Imaginem se pega moda...