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quinta-feira, 24 de maio de 2012

REPOSTAS A UM LEITOR

Caro Renato,

Reparou que I'll have Another É da mesma família materna que Affirmed?

Gostaria de saber sua opinião sobre os leiloes brasileiros. Muita oferta e poucos compradores ou RNAs exagerados, para justificar a taxa de 40% de reservas?

E a opinião do diretor de stallions da Darley, de que a América do Sul ainda é um repositório de genética (creio que por não estarmos inundados pelas tribos de Northern Dancer e suas duplicações mais comuns). Devemos perseguir o modelo mundial ou investir na miscegenação que nos caracteriza? Sei da sua opinião pelo o que escreve, mas gostaria que comentasse o ponto de vista de uma pessoa do mercado como Sam Bullard.

Abraço e grato pela entrevista na HorsePSI. Vou mandar para você um exemplar.

Enviado via iPad
Ricardo Ravagnani



Ricardo,


Prazer ouvir de você.


Para lhe ser franco, não havia atentado para o fato. Outrossim, creio que a 23-b seja uma das linhas confiáveis em termos de classicismo e possa até dar um segundo tríplice coroado. Embora longinquas, já que o ponto de encontro dos ramos maternos destes dois importantes alazãs, a égua Gallopade (1828) - a décima oitava mãe de I'll Have Another  e a décima quinta mãe de Affirmed -, é bem longinquo, evidentemente que existe a possibilidade.


Tenho uma opinião formada sobre os leilões brasileiros. É longa. O que posso lhe afiançar de inicio,  é que eles vem em grupos e em datas distintas. Quando frequentei com mais assiduidade os mesmos, na época que prestei serviços ao Stud Estrela Energia, senti que a melhor forma e quem sabe a mais segura, de se alcançar sucesso, fosse visitar os haras com antecedência e tentar examinar o maior número de cavalos oferecidos, meses antes deles estarem pisando os Tattersalls do Rio e de São Paulo. Por que assim? Pois, o que é o melhor de uma noite de venda, poderá não ser no geral de todas as vendas. Seleção de cavalos de corrida necessita comparação. Por isto Keeneland tem a assiduidade que tem. ter sucesso em uma seleção, nem sempre precisa de comparação. Comparar não é obrigatório, mas ajuda, pois, não é todo dia que um Much Better aparece na sua frente. Para se ter uma ideia, no segundo ano, cheguei a examinar 1,100 potros, o que equivale dizer, que mais de 80% dos cavalos que seriam oferecidos.


Diria sem falsa modéstia, que você sabe não ser o meu perfil, que o projeto foi coroado de sucesso. Foram 32% de elementos clássicos, um ganhador da prova de maior dotação mundial chamado Gloria de Campeão e poderia ter tido ainda outro cavalo de muita importância internacional, se este não houvesse sido vetado pelo treinador da época, o que me fez selecioná-lo e adquiri-lo para um grupo norte-americano. O cavalo a que me refiro é Einstein. O único potro brasileiro inédito, exportado para os Estados Unidos, que ganhou prova de graduação máxima. Se somarmos o que os cavalos que o Estrela Energia ganharam em pista, posso garantir que seu investimento foi ressarcido em termos do que investiu na compra dos mesmos. E se Einstem tivesse sido parte do negócio, claramente estaria corpos a frente. Esta é a vantagem deste negócio: um grande cavalo paga a conta. Desde que o seu treinador não o vete...


Evidente no tocante a oferta, ela é sempre maior que a demanda. Aqui, na Europa, na África, na Ásia, na Austrália e mesmo no América do Sul. Keeneland sofreu bastante com a suposta queda do mercado. Por que digo suposta? Por que quando esta importante companhia de vendas, adequou a oferta à demanda apresentada nos anos anteriores, a coisa voltou a crescer. Na Europa este problema não ficou tão flagrante, pois lá foi mais fácil e rápida a adequação. mesmo os problemas de economia serem mais agudos, Logo, da mesma forma que se torna impossível se vender gelo no Alaska, creio que é muito dificil se vender 400 Ferraris no  Piauí. Três ou quatro, talvez. 400, nunca!


Com todo respeito, acho o cavalo brasileiro caro, para o dólar que temos hoje. O que o faz ainda competitivo, é o alto custo de importação para o Brasil do elemento adquirido no hemisfério norte. Por sua vez, o sistema de lançamento de parcelas, é um absurdo, que foi impetrado quando as coisas andavam más para o vendedor. Hoje acho que elas penalizam os compradores e criam a possibilidade de inadimplências e de descontos disformes conforme a cara do freguês. Ai eu me pergunto, qual a chance que o pequeno investidor tem, se o seu lance é as vezes 20% monetariamente mais caro,  a daqueles, que por comprarem muito, possuem "condições especiais" para a aquisição? Eu diria que muito poucas.


Ainda mais que este pequeno investidor não tem a visão global de tudo que será ofertado e sempre é bom lembrar que existem a s trocas de figurinhas. Eu compro de você e você compra de mim. Particularmente, gosto da forma como o Santa Maria de Araras vende seus potros. Talvez por isto, entre as grandes potências de nosso turfe, seja o que mais resultados numéricos, tenha dado aos investidores.


Quanto as reservas, ela muitas vezes tem um propósito de camuflar os verdadeiros objetivos de alguns vendedores. Oferta total, muitas vezes têm que ser analisada, como limpeza de área. Você defende alguns, e compra para amigos o que gostaria de correr. Vende apenas o excedente. E aquele que vale X, ao lado de um bando que é defendido por baixo do pano por XXX, acaba arrumando no sistema de lançamento de parcelas, XX. Os super mercados norte-americanos adotaram esta forma de marketing nos anos 60.


Ravagnani, você já ouviu aquela história, digo o que eu faço, mas não faço o que eu digo? pois é, muitas vezes é dito aquilo que se quer dizer apenas para agradar, mas nem sempre o que se realmente pensa. Se o senhor Sam Bullard investir na ideia que defendeu, não terá vida longa em qualquer operação de primeiro nivel no hemisfério Norte. Logo, talvez seja mais sensato como convidado em dizer aquilo que amenisa uma situação, do que expo-la em seu âmago. Desculpe, a franqueza, mas vivo desde 1987 no seio do mercado e sei como as coisas funcionam. Não sou eu que determino as direções do mercado. Apenas as capto e as procuro seguir. Afinal, os pedigrees preenchem as necessidades de uma determinada época. Linhas desaparecem, não por obra e acaso do Espirito Santo. Ela evaporam por não conseguirem adaptar-se ao que o turfe moderno exige. E hoje as exigências são muitas. Imagine um Son-in-Law ou um Hurry On nos dias de hoje. Ontem o sprinter era execrado. Hoje, idolatrado. Tesio tinha tão somente no disco de chegada de Epson, seu parâmetro para garanhões. Hoje quem assim o fizer, poderá embarcar na canoa errada.


Mas sejamos práticos. Hoje dia 24 de Maio, posso lhe garantir que 404 provas de grupo foram disputadas no hemisfério Norte e 335 destas provas vencidas por elementos que possuem pelo menos uma duplicação em seu pedigree até a quinta geração em termos de machos e sexta em termos de fêmeas. Isto representa 82,92%. No hemisfério Sul, tivemos 357 disputas, sendo que 292 foram vencidas por elementos com pedigrees nas mesmas condições descritas acima. Logo, 81,59%. E garanto a você que a grande maioria destes são imbreeds em Northern Dancer, Mr. Prospector e seu pai Raise a Native. Assim sendo se você preferir contar com menos de 20% de chances de sucesso nesta seára, que o tente. Sejam um herói! Mas como nas guerras, gostaria de lembrar, que são justamente os heróis que acabam por morrer mais cedo e em maior número...


Na recente disputa do mais importante fim de semana turfísta de sua terra, escrevi isto: Seria coincidência que 5 dos ganhadores tenham pelo menos uma duplicação (imbreed) até a sua quinta geração? Creio que não, pois, o percentual de 83,33% é basicamente similar aos de outros mercados. E destes quatro, com duplicações em Mr. Prospector, Northern Dancer e Nearctic (o pai de Northern Dancer). Logo, até aqui, nas terras de Cabral, parece que o rio também está andando em direção do mar.


Usar um cavalo de pedigree chamado aberto, não é trazer um cavalo que não tenho isto ou aquilo em suas linhas genéticas. Pensar assim é agir qual um primata. Nasrullah, quando foi trazido para os Estados Unidos, podia ser considerado um pedigree aberto para os norte-americanos, mas certamente qualquer Nearco, não o era para os europeus. Ele causou impacto. O mesmo aconteceu em ordem inversa, quando os Northern Dancer puseram suas patinhas no velho continente. 


Mas acho que me alonguei demais.


Abraços e continue servindo ao turfe da grande forma como o tem servido até aqui.
Renato