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sábado, 15 de setembro de 2012

CAMELOT


Existem coisas que atendem pelo mesmo nome, mas que para mim possuem distintos significados. A tríplice coroa - entre os cavalos de corrida - pode ser considerada uma delas. Basicamente abolida na França, e nunca levada a sério na Irlanda, vejam como são distintas as disputas nos dois mais importantes centros do mercado, os Estados unidos e a Inglaterra, onde na realidade tudo começou.

Nos Estados Unidos, num espaço exíguo de cinco semanas, os cavalos em treinamento por aqui vão dos 1,900 aos 2,400 metros. As duas primeiras provas separadas por apenas duas semanas, e a terceira 21 dias depois. Não existe um tríplice coroado neste lado do Atlantico há 34 anos, mas pelo menos 11 elementos estiveram por de fazê-lo. Por que não o fizeram? Para mim por dois motivos. Primeiramente pela falta de stamina nos pedigrees daqui. Chegar a milha e meia se tornou uma verdadeira odysseia, dentro de um mercado que preza a precocidade e tem como distância clássica os 2,000m. E segundo a agressividade que tomou conta dos treinadores e proprietários em exigir dos cavalos muito antes deles poderem ser quiçá considerados formados fisicamente. 

Mas pelo menos aqui tenta-se e como dizia minha querida vó Adelina, é impossível se conseguir, se a gente pelo menos não tentar. Na Inglaterra, onde a tríplice coroa foi inventada, nem se tentar se tenta, pois os 2,800m, distância em que é disputado o St. Leger de Doncaster, está completamente off-broadway. Ademais a proximidade para com a disputa do Arco, que depois de Ribot passou a ser o foco da grande maioria dos proprietários europeus, ganhar as duas parece ser um fato quase que inviável.

A verdade é que o modelo daquele que deveria ser o cavalo ideal para fins reprodutivos mudou. Não mais se olha para o cavalo que disputou aos 3 anos tríplice coroa com algum sucesso, e os 4,000m da Ascot Gold Cup no ano seguinte. Hoje o que se quer é aquele cavalo que tenha corrido bem os 1,400m do Dewhurst Stakes aos 2 anos, que se saia bem em um das importantes milhas para os três anos, ou nas provas onde eles possam correr, como o Two Thousand Guineas, o St. James Palace stakes, o Sussex Stakes e o Queen Elizabeth Stakes. E se ele, neste ínterim, for ao Derby, isto pode e deve ser considerado como um bonus. St. Leger e Ascot Gold Cup, nem pensar.

O fato de não haver um tríplice coroado nos últimos 42 anos na Inglaterra, não me apavora. O que me deixa triste é que nem pelo menos foi tentado. Sim, desde Nijinsky, que nenhum outro cavalo sequer tentou, e tanto Nashwan, quanto Sea the Stars, poderiam e aqui entre nós, venceriam, pois, além de terem as condições de pedigree para tal, totalmente dominaram suas respectivas gerações. E mesmo na época de Nijinsky, o último a tentá-lo e a consegui-lo, a coisa já estava preta. O invicto em 9 saídas as pistas Bahram, em 1935 - o mesmo ano que Omaha o conseguiu também nos Estados Unidos e Hitler mandava suas tropas para o Rhineland - foi o último a conseguir o titulo e também o último a tentá-lo, até Nijinsky.

A verdade nua e crua, é que não é fácil se ganhar os Guineos de Newmarket em Maio e o Derby de Epson em Junho, e então esperar três longos meses, no verão, para o desfecho em Doncaster. Creio licito se afirmar, ser a coroa inglesa mais difícil de ser alcançada que a norte-americana. E diria que até tentada, pois, pelo modelo desenhado para ambas, nos Estados Unidos, o ganhador do Kentucky Derby, tem chances muitos maiores de ganhar o Preakness, com menos 100 metros, um campo menor e com apenas 15 dias de diferença, que aquele que ganhou os Guineos e tem que pular em um mês da milha a milha e meia e em campos repletos. Além de quem Epson é um hipódromo complicado, onde os cavalos se adaptam ou não. Mas antes de Bahram, pelo menos quatro tiveram a chance de fazê-lo e pelo menos tentaram, sem êxito: Cameronian, Manna, Minoru e St. Amant. 

No século XX, houveram ganhadores da tríplice coroa, em ambos os lados. Sete no velho mundo e 11 - sendo um, Sir Barton, pós disputa - nos Estados Unidos. Mas diria que os anos 70 foram dourados nos Estados Unidos, com Secretariat em 1973, Seattle Slew em 1977 e Affirmed em 1978. E se não fossem os problemas sofridos por Spectacular Bid, naquela semana em Belmont Park, teríamos tido quatro, para período de oito anos. Tive o privilégio de acompanhar ao vivo, quatro destes e um por filmes. Logo, nada tenho a reclamar.

Por que isto aconteceu? Por que a criação de cavalos de corrida nos Estados Unidos estava em seu ponto máximo de crescimento. O ponto que levou a exportar com sucesso a quatro ganhadores do derby inglês, para um período de cinco anos: Sir Ivor, Nijinsky, Mill Reef e Roberto. Que quarteto!

Mas embora, como frisei anteriormente, houveram ganhadores de ambos os lados, há de se convir, que as disputas durante a primeira guerra mundial, todas levadas a efeito em Newmarket, de alguma forma me deixam incrédulo, sobre a validade das tríplice coroas vencidas, para este nefasto período. Com todo o respeito que merecem, pelo que fizeram, Pommern em 1915, Gay Crusader em 1917 e Gainsborough no ano seguinte, eles o conseguiram, em campos menores, em um mesmo hipódromo e com um calendário tremendamente afetado pelo conflito bélico mundial.

Para dar fim a este prólogo e trocando em miúdos, diria que não se ganhou mais tríplices coroas nos Estados Unidos por inépcia staminica daqueles que tiveram a chance para tal. E na Inglaterra, por que os poucos que poderiam ganhar, não a quiseram.

E por que será que a Coolmore quer? Abdicar do Arco em prol do St. Leger, não dará mais status a Camelot, já que ganhar a ambos, nem Nijinsky o conseguiu, embora tenha chegado bem perto. Qualquer que tenham sido as razões, uma coisa é certa. A chama, até então considerada como apagada da tríplice coroa britânica, foi novamente reacesa e hoje, desde as cinco horas da manhã, que estou acordado.