Nos Estados Unidos, num espaço exíguo de cinco semanas, os cavalos em treinamento por aqui vão dos 1,900 aos 2,400 metros. As duas primeiras provas separadas por apenas duas semanas, e a terceira 21 dias depois. Não existe um tríplice coroado neste lado do Atlantico há 34 anos, mas pelo menos 11 elementos estiveram por de fazê-lo. Por que não o fizeram? Para mim por dois motivos. Primeiramente pela falta de stamina nos pedigrees daqui. Chegar a milha e meia se tornou uma verdadeira odysseia, dentro de um mercado que preza a precocidade e tem como distância clássica os 2,000m. E segundo a agressividade que tomou conta dos treinadores e proprietários em exigir dos cavalos muito antes deles poderem ser quiçá considerados formados fisicamente.
Mas pelo menos aqui tenta-se e como dizia minha querida vó Adelina, é impossível se conseguir, se a gente pelo menos não tentar. Na Inglaterra, onde a tríplice coroa foi inventada, nem se tentar se tenta, pois os 2,800m, distância em que é disputado o St. Leger de Doncaster, está completamente off-broadway. Ademais a proximidade para com a disputa do Arco, que depois de Ribot passou a ser o foco da grande maioria dos proprietários europeus, ganhar as duas parece ser um fato quase que inviável.
A verdade é que o modelo daquele que deveria ser o cavalo ideal para fins reprodutivos mudou. Não mais se olha para o cavalo que disputou aos 3 anos tríplice coroa com algum sucesso, e os 4,000m da Ascot Gold Cup no ano seguinte. Hoje o que se quer é aquele cavalo que tenha corrido bem os 1,400m do Dewhurst Stakes aos 2 anos, que se saia bem em um das importantes milhas para os três anos, ou nas provas onde eles possam correr, como o Two Thousand Guineas, o St. James Palace stakes, o Sussex Stakes e o Queen Elizabeth Stakes. E se ele, neste ínterim, for ao Derby, isto pode e deve ser considerado como um bonus. St. Leger e Ascot Gold Cup, nem pensar.
O fato de não haver um tríplice coroado nos últimos 42 anos na Inglaterra, não me apavora. O que me deixa triste é que nem pelo menos foi tentado. Sim, desde Nijinsky, que nenhum outro cavalo sequer tentou, e tanto Nashwan, quanto Sea the Stars, poderiam e aqui entre nós, venceriam, pois, além de terem as condições de pedigree para tal, totalmente dominaram suas respectivas gerações. E mesmo na época de Nijinsky, o último a tentá-lo e a consegui-lo, a coisa já estava preta. O invicto em 9 saídas as pistas Bahram, em 1935 - o mesmo ano que Omaha o conseguiu também nos Estados Unidos e Hitler mandava suas tropas para o Rhineland - foi o último a conseguir o titulo e também o último a tentá-lo, até Nijinsky.
A verdade nua e crua, é que não é fácil se ganhar os Guineos de Newmarket em Maio e o Derby de Epson em Junho, e então esperar três longos meses, no verão, para o desfecho em Doncaster. Creio licito se afirmar, ser a coroa inglesa mais difícil de ser alcançada que a norte-americana. E diria que até tentada, pois, pelo modelo desenhado para ambas, nos Estados Unidos, o ganhador do Kentucky Derby, tem chances muitos maiores de ganhar o Preakness, com menos 100 metros, um campo menor e com apenas 15 dias de diferença, que aquele que ganhou os Guineos e tem que pular em um mês da milha a milha e meia e em campos repletos. Além de quem Epson é um hipódromo complicado, onde os cavalos se adaptam ou não. Mas antes de Bahram, pelo menos quatro tiveram a chance de fazê-lo e pelo menos tentaram, sem êxito: Cameronian, Manna, Minoru e St. Amant.
No século XX, houveram ganhadores da tríplice coroa, em ambos os lados. Sete no velho mundo e 11 - sendo um, Sir Barton, pós disputa - nos Estados Unidos. Mas diria que os anos 70 foram dourados nos Estados Unidos, com Secretariat em 1973, Seattle Slew em 1977 e Affirmed em 1978. E se não fossem os problemas sofridos por Spectacular Bid, naquela semana em Belmont Park, teríamos tido quatro, para período de oito anos. Tive o privilégio de acompanhar ao vivo, quatro destes e um por filmes. Logo, nada tenho a reclamar.
Por que isto aconteceu? Por que a criação de cavalos de corrida nos Estados Unidos estava em seu ponto máximo de crescimento. O ponto que levou a exportar com sucesso a quatro ganhadores do derby inglês, para um período de cinco anos: Sir Ivor, Nijinsky, Mill Reef e Roberto. Que quarteto!
Mas embora, como frisei anteriormente, houveram ganhadores de ambos os lados, há de se convir, que as disputas durante a primeira guerra mundial, todas levadas a efeito em Newmarket, de alguma forma me deixam incrédulo, sobre a validade das tríplice coroas vencidas, para este nefasto período. Com todo o respeito que merecem, pelo que fizeram, Pommern em 1915, Gay Crusader em 1917 e Gainsborough no ano seguinte, eles o conseguiram, em campos menores, em um mesmo hipódromo e com um calendário tremendamente afetado pelo conflito bélico mundial.
Para dar fim a este prólogo e trocando em miúdos, diria que não se ganhou mais tríplices coroas nos Estados Unidos por inépcia staminica daqueles que tiveram a chance para tal. E na Inglaterra, por que os poucos que poderiam ganhar, não a quiseram.
E por que será que a Coolmore quer? Abdicar do Arco em prol do St. Leger, não dará mais status a Camelot, já que ganhar a ambos, nem Nijinsky o conseguiu, embora tenha chegado bem perto. Qualquer que tenham sido as razões, uma coisa é certa. A chama, até então considerada como apagada da tríplice coroa britânica, foi novamente reacesa e hoje, desde as cinco horas da manhã, que estou acordado.