Diziam os antigos, e entre eles minha vó Adelina, que existem várias caminhos para Roma. Dizem até que todos os caminhos o levam lá. O que eu já acho um exagero. Tentei uma vez via Duque de Caxias, e quase não sai vivo de lá.
Igualmente existem vários caminhos para se adquirir um diamante, porém, com experiência de causa, afirmo, que nem todos o levam lá. Por exemplo, na seleção de cavalos de corrida ainda inéditos, você igualmente pode trilhar várias veredas. A mais simples de todas, é entrar na Tyffany's e adquirir um já polido e pronto para o uso. O mais tortuoso, ir a montanha e tentar achar o seu e fazer o seu próprio polimento. A qualidade dos dois diamantes poderá ser no final a mesma, mais os preços de aquisição, serão bastante distintos.
Para se achar algo que você crê que possa ser um diamante bruto, existem igualmente vários métodos. Eu tenho o meu. Outros os tem também. Logo, não existe uma verdade, absoluta. Diria que sequer relativa. Existem métodos. Uns funcionam percentualmente mais, outros menos. Uns requerem mais dinheiro, outros mais pesquisa. Enfim, sempre existirá um que irá se adaptar mais a suas posses e necessidades, mas a verdade nua e crua, é que nenhum lhe garantirá 100% de acerto.
Vou me ater aqui a um lote desta venda de Keeneland que está chegando a seu final. Não interessa quem comprou ou deixou de comprar e quanto custou a investida. Estou analisando apenas uma situação. Nunca uma tomada de posição. Como também não posso garantir que a potranca em questão estará entre os 1% de ganhadores de grupo que estas vendas - de mais de 4,000 elementos - ofereceu. O certo, é que o turfe vive de probabilidades e se você quer dele participar, tem que dançar conforme o ritmo. A única coisa factível de se dizer, é que se você tentar fazer as coisas certas, sus chances de acerto serão maiores do que aqueles que vão apenas pelo instinto, pela sorte ou simplesmente pelo fato de todo e qualquer cavalo ter quatro pernas, duas orelhas e uma cabeça.
Notem que estamos nos atendo a uma potranca pertencente ao catalogo 5. Logo ela está muito mais para a montanha que para a Tyffanys. Mas como neste catálogo achei alguns ganhadores de grupo, entre os quais Cara Rafaela, vou tomá-lo como exemplo.
Muita gente irá virar a página sem sequer se dar conta do que nela está inserida, pelo simples fato de tratar-se de uma filha de um reprodutor, que não pode ser considerado um must. É honesto, mas como diria minha vó Adelina, de honestos o inferno está cheio. Por sua vez, a mãe da potranca, embora seja uma A. P. Indy, deve ainda. Não para mim, mas diria que para a grande maioria do mercado. Concordo que você espera das filhas deste chefe de raça, mais do que apenas quatro ganhadores em seis, em idade de correr. O que você tem que levar em conta, é que os quatro outros, que não aparecem no catálogo, são filhos de Buddha, com certeza um dos piores reprodutores já iniciados em Kentucky. E assim mesmo esta pobre coitada, fez três deles ganhar...Logo, pelo menos para mim, ela está mais para santa do que para vadia.
Particularmente, não acredito que seja por ai, que você deva selecionar ou não um cavalo para representar suas cores. Eu, como já é de domínio público, inicio minha seleção por linhas maternas. Marco todos os descendentes, daquelas que acredito serem as ramas com maior poder de hereditariedade. E acrescento algumas outras que acredito que estejam em ascensão. Dai, com a minha primeira lista em mãos, parto para estudar os ramos destas linhas e concluo, quais em meu modo de ver, são os que mais chances possuem de manter a transmissão de classicismo. E com uma lista ainda menor, passo então a observar as estruturas dos pedigrees, em seis gerações. É aquilo que chamo de engenharia genética, dando particularmente maior ênfase, a aqueles que já possuam duplicação em importantes pontos de força. Com a lista inicial reduzida, nestes dois critérios seletivos, faço então uma leitura dos pedigrees, tendo em conta quem é o pai e o que a mãe produziu, para chegar a lista final, que será aquela que irei examinar fisicamente no campo.
Mas vamos nos manter neste exemplo prático que propus. A potranca em questão pertencia a linha 3-l, que na verdade não é uma daquelas que sempre tenho como base, porém , uma que esta em plena ascenção e que este ano com oito individuais ganhadores de grupo, está entre as únicas seis linhas que produziram cinco ou mais individuais ganhadores de graduação máxima.
Dentro do estudo das ramagens, creio que inicialmente Davona Dale, irmã da segunda mãe desta potranca, tenha sido a melhor potranca produzida pela poderosa Calumet farm. Além de tríplice coroada, ela andou enfrentando os machos, sendo inclusive colocada no Travers Stakes (Gr.1). Em entrevista que fiz e aqui já publiquei com seu treinador, John Veitch, descobri que para ele, Davona Dale era superior a Alydar. Opinião que na época, me surpreendeu sobremaneira.
Pois bem, hoje nos Estados Unidos, não existe o menor resquício de sombra de dúvida que a melhor 2 anos em treinamento é uma potranca de Bob Baffert chamada Executiveprivilege. Uma filha de First Samurai. Pois bem, esta invicta em cinco apresentações e que hoje parece ser a possível champion 2yo, tem como sua terceira mãe a Davona Dale. Fato que como vocês podem constatar, não aparece publicado no pedigree, mas que garante que este veio está mais do que vivo. E o do momento.
Não estar escrito no catálogo, não quer dizer que não seja verdade. É obrigação daquele que elege um cavalo de corrida inédito, saber o que é e pode não estar escrito. Passada nos dois primeiros crivos, é chegada a hora da análise da estrutura genética, e nesta a engenharia lhe foi farta. Olhem como se comporta este pedigree.
Rasmussen factor em
Somethingroyal 5x6x7
Two Lea 6x6x5
Plum Cake 5x5
Imbreed em
Secretariat 4x4
Raise a Native 4x4
Tim Tam 5x4
Native Dancer 6x5
O Rasmussen Factor em Somethingroyal, já em diversas oportunidades aqui foi por mim defendido, como um dos mais importantes destas últimas décadas, outrossim, é importante de igualmente se notar, que Two Lea e Plum Cake, foram as duas mais importantes reprodutoras da história da Calumet Farm. Te-las duplicadas é um must. Se quem propôs este cruzamento o fez sabedor do assunto, ou por pura obra do acaso do Espirito Santo, não cabe a mim discutir. O que interessa é que ele estava lá, ponto para ser notado, por quem quisesse fazê-lo.
Levando-se em consideração que a mãe coberta anteriormente em sete oportunidades por cavalos que não objetivaram este tipo de cruzamento e mesmo assim conseguiu quatro ganhadores, nos seis de idade hípica - sendo por cinco vezes com o completamente inútil Buddha - eu diria que a mesma não pode ser considerada uma negada. Ela apenas não teve a chance que agora estava tendo, em minha opinião particular.
Pois bem, acima da reserva adotada por seus antigos donos, houveram apenas 3 lances, logo, não acredito que houvessem muitos interessados, e assim, mais um elemento com possíveis possibilidades clássicas, foi relegado a um total ostracismo. Arriscar em um elemento assim, a um preço que pode ser considerado razoável, evidentemente que não deixa de ser uma boa aposta, ainda mais, levando-se em consideração, o residual reprodutivo que ela detém, independentemente do que apresentar em pista.
Não vou discutir se o preço alcançado foi alto ou baixo. Cada um tem o seu conceito do que pode ser caro ou barato. O que discuto aqui, é que existe o potencial clássico e ele pode não ter sido notado por muitos. ou se notado, não a ponto de sensibilizar.
Agora é torcer por um pouco de sorte e que os profissionais que irão reger a vida desta potranca, possam tirar dela, o que ela parece ter. Evidentemente dentro daquele percentual maior que você passa a ter quando tenta fazer as coisas certas. Mas como diria vó Adelina, até mesmos deste, o inferno se encontra cheio...mas eu complementaria que em proporções menores...

