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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

PEQUENO PAPO DE BOTEQUIM: CONSEQUÊNCIA OU OBJETIVIDADE

Vou responder aqui a um telefonema que recebi, o que não é muito usual de minha parte. Porém, creio que se torna importante fazê-lo, para que as pessoas tenham a nítida noção, de que existe uma grande diferença entre um poeta e um cientista.

Existe igualmente uma grande diferença entre consequência e objetividade. Eu mesmo vivo este drama há mais de 40 anos, quando então me profissionalizei naquilo que ora exerço. Sou um ex-arquiteto, que se transformou numa espécie de jornalista turfístico e como consequência, em um agente de cavalos de corrida. E não foi por ter nascido em uma familia ligada ao turfe. Muito pelo contrário, meu pai nunca colocou os pés na Gávea e que eu me lembre, nenhum outro parente meu, o fez. E para deixar mais clara ainda a visão de meu passado, pouco antes de falecer, meu pai me perguntou, para que, alguém poderia querer ter um cavalo, que não o fosse para montar. Logo, foi uma opção minha. Todavia, em minha vida adotei uma certa inversão de valores. Como jornalista tento me utilizar de minha objetividade para provar meus pontos de vista. Como agente, tento prever as consequências do que aquela minha seleção irá produzir a médio e longo prazo, para aqueles que confiam em meu trabalho. Parece complicado de se entender, mas não é. Explico-me.

Hoje pela manha, enquanto andava, recebi um telefonema de um amigo que acompanha meu trabalho e tem notado a seleção de reprodutoras que tenho levado a efeito para o Stud Colorado. E ele me paramenizou, pelo simples fato deste estabelecimento de cria ter adquirido para suas lides, filhas dos atuais quatro primeiros colocados nas estatísticas de avôs maternos: Storm Cat, Sadler's Wells, Barathea e Deputy Minister. E se eu disser a vocês, que agradeço, mas não mereço?

E se, novamente disser para vocês, outra coisa mais: que a mais importante das éguas filhas destes cavalos entre as que adquiri, seria a filha do Barathea, tendo em vista a estrutura de pedigree a se formar com o reprodutor escolhido? Serei inevitavelmente, taxado de maluco. Não importa. Principalmente quando ela é capaz de produzir algo assim.




O que realmente importa é que o fato do Stud Colorado ter filhas destes quatro consagrados avôs maternos, ser apenas uma consequência. Nunca um objetivo. Por que? Por que as linhas baixas, os fisicos e a estruturas de pedigree foram o real objetivo. Nunca cheguei as vendas pensando em comprar filhas deste, daquele ou daquele outro. O fato de serem filhas destes consagrados avôs maternos, nada mais é do que uma consequência. Aquilo que realmente me guiou foram os três outros objetivos citados. A consequência de serem filhas destes cavalos, ditou o preço das mesmas. Já que o mercado se guia mais por objetivos do que consequências e encarece aquilo fácil de ser notado. E se assim não o fosse eu nunca teria adquirido uma filha de Isgala.



E se o fiz, é por que acredito que nem sempre aquilo que parece maior ou melhor, seja na realidade o de maior valor residual. Manhattan tem 13 milhas de comprimento por 2,3 milhas de largura. Logo, não é grande, todavia é valiosa. E olha que esta ilhota em 1625 foi adquirida aos nativos Lenapes, por 60 Guilders ( equivalente a US$24,00), algumas peles, roupas e espelhinhos, pelo então diretor da West Indian Company, Willem Verhulst e passou a ser conhecida como New Amsterdan. O que prova que não é o tamanho que conta e sim a qualidade inserida no mesmo. A analogia pode não ser correta, mas o conceito o é.

E aproveitando a saída dos trilhos comento algo que considero oportuno. Outro dia li no jornal do turfe um comentário que assim tinha o seu inicio. "... no maior e mais importante núcleo criacional do país, Bagé/Aceguá, poder-se-ia dizer que no momento, estão sediados 15 garanhões já provados, 14 em experimentação e 6 sem oportunidades..." Não cabe a mim ou ninguém julgar os parâmetros de experimentação, oportunidades e abandono, deste ou daquele determinado reprodutor, principalmente sendo estes parâmetros erigidos por alguém reconhecidamente conhecedor do assunto. E mesmo que não fosse, opiniões tem que ser respeitadas. Porém omissões, lembradas. Completaria, afirmando com conhecimento de causa, que existe ainda um trigézimo sexto garanhão. Não citado na nota publicada no Jornal do Turfe, vivo e acreditem, em plena atividade. Com um book altamente selecionado de cerca de 30 éguas, sendo mais de 20 importadas, nesta temporada. E pasmem, é este reprodutor esquecido, o que conta com o melhor índice de aproveitamento moderno, na produção de cavalos que ganham a nossa mais importante carreira do calendário, o Grande Prêmio Brasil. O nome do esquecido? Acteon Man, que com um total de apenas oito produtos nascidos no somatório de suas duas primeiras gerações, foi capaz de gerar a Belo Acteon, sendo este um dod dois elementos com pontuação em provas de graduação máxima, gerados por este novo reprodutor. Mas voltemos aos trilhos.

Outro detalhe, eu tenho a minha lista particular de garanhões, que os correntistas e patrocinadores de meu blog tem amplo acesso. E nesta lista compilo o número de ganhadores de grupo por ele produzidos, por temporada, bem como o número de vitórias e a graduação das mesmas. Logo, ela pode, no frigir dos ovos, ser até parecida com a usual de prêmios ganhos publicadas pelas principais revistas especializadas. Todavia, lhe garanto que nem sempre coincide. E mais uma vez, é a prova que para mim, que existe consequência e objetividade. O percentual de produção clássica de um reprodutor, na maioria das vezes, fala mais alto para mim, que o montante de prêmios ganhos por seus filhos.

Como sempre me lembra minha esposa Cristina, se eu fosse mais objetivo e menos preocupado com as consequências, estaria melhor financeiramente. Concordo, que poderia ter um apartamento maior e quem sabe até uma Ferrari, mas em compensação não chegaria ao Arco, ao King George e as Breeders Cup que participei, pois, teria aberto mão da única chance que tenho perante os grandes investidores do mercado: a diferença do detalhe.

Há ciência de quem milita neste mercado, que a grande chance nossa está naquele cavalo que não chama a atenção do investidores, pelo que é apresentado nas páginas de um catálogo. Outrossim, na grande maioria das vezes, as verdadeiras "forças" de sua estrutura genética não estão visíveis para aqueles, que apenas se atem ao que é apresentado no catálogo. Logo, nem examinados são. Assim sendo a gente tem que procurar ali e tentar descobrir o diamante longe da montanha que os produziu. É este o detalhe a que me refiro. Ai você examina e acaba achando algo que preencha as suas aspirações. Isto lhe garante sucesso? Evidentemente que não. Mas pelo menos lhe aumenta a chance de consegui-lo.

Detalhe sempre faz a diferença. Na forma de você se vestir, falar e até agir. Quanto mais e você quiser disputar uma carreira contra os maiores e mais experientes investidores do mercado. Seja no Brasil, ou no mundo.  E por isto você tem que pensar mais nas consequências, e para tal, muitas vezes se eximir da objetividade que o mercado lhe oferece. E isto diferencia o poeta do cientista, embora, na grande maioria das vezes, ambos invariavelmente, morrem de fome...