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segunda-feira, 22 de abril de 2013

PEQUENO PAPO DE BOTEQUIM: SER É SER PERCEBIDO


Ser é ser percebido. Esta é uma frase do anglo-irish filósofo George  Berkeley, um bispo que morreu no século XVIII, visto como critico em relação ao "abstracionismo", mas ferrenho defensor da tese do "imaterialismo". To be is to be perceived.  Enfim, um cara que viveu há muito anos atrás e que demonstrou saber das coisas. Afinal, não existe maior verdade do que esta. 

A grande maioria dos seres humanos a vive e dela necessita, como do ar que respira. No turfe, embora encenado por equinos, esta verdade tem um cunho ainda mais real, pois a disputa é verdadeiramente constante. Diária. Aliás, diria mais. Vive-se dela. Sem a disputa, não existiria o esporte e muito menos o mercado que a sustenta.

Mas, o importante a se entender, é que você pode ser notado em diversos patamares e isto não faz de você um ser diferenciado. E são os diferenciados que fazem a roda da vida turfística, girar. Ir para frente. Alcançar outros patamares. Os apenas percebidos, são por sua vez, o resto do elenco. Os coadjuvantes. Os apenas participantes. É como por exemplo, conto que na espera da disputa de duas provas de grupo disputadas em Santa Anita neste domingo, deparei-me com uma transmissão levada a efeito diretamente do estádio Vermelhão da Serra, de uma partida de futebol entre o Passo Fundo e o Veranópolis. Bizarro, porém ainda mais incrédulo, é gostar do que se via. Jogadas de efeito, dribles marcantes, atuações acima da média. Pois é, para ser percebido, você pode estar até no Vermelhão da Serra, o problema é que para ser diferenciado você teria que estar no Beira Rio ou na Arena, numa disputa entre Internacional e Grêmio. Explico-me.

O diferenciado necessita de parâmetros que provem seu "diferenciamento" natural. É aquele famoso, quando, como e contra quem que o turfe necessita. Em claimings, são diversas vezes batidos recordes e certas atuações, muita vezes, são vislumbradas como espetaculares. Ai, aquele que o fez, é de uma hora para outra, levado a uma esfera superior, e como num passe de mágica, fracassa, em tempo muito inferior por ele já obtido anteriormente. Por que? Por que como sempre faço questão de frisar, o ar que se respira é outro. Seria para o Veranópolis como deixar para trás o Passo Fundo e agora enfrentar o Internacional. Chances de sobrevivência? Poucas. Probabilidades de manutenção da presumível classe? Nenhuma.

Levo avante semanalmente pesquisas sobre as provas de grupo em 26 países do mundo. O simples fato das provas escolhidas serem de grupo, já as diferencia. Outrossim, existem palcos distintos e há de se convir, que alguns exigem uma muito maior competividade. E são assim, neles, que analiso os resultados e transformo-os em ferramentas de seleção para a minha clientela. Há uma grande diferença entre um ganhador de grupo de Royal Ascot, no quintal de Windsor e um em Camarero no centro de São José de Porto Rico. O mundo serve apenas para provar aquela minha tese, que o que acontece de bom em Royal Ascot, dificilmente deixaria de funcionar bem em Camarero, embora a reciproca não seja em 99% dos casos, verdadeira. Quer uma prova entre humanos? É sempre mais fácil se mudar da Rocinha para a Vieira Souto, do que da Vieira Souto para a Rocinha. O problema é quem desce o morro da praia, lá sobreviver e se manter.

Este fim de semana foram corridos no três mais importantes circuitos do hemisfério norte, nada menos que 25 provas de grupo. E o que se notou é que quase a metade delas, vieram a ser vencidas por elementos de seis famílias maternas. O que em outras palavras quer dizer, que estas ramagens foram responsáveis por dois vencedores cada. Isto é um fato. Qual sua importância? Diria que duas. Primeiramente, gostaria de deixar claro, que não é fácil se ganhar uma prova de grupo nestes três centros - Europa, Estados Unidos e Japão - quanto mais dentre as 450 famílias ainda consideradas vivas, seis delas repetirem a dose em tão breve espaço de tempo. Segundo que estas famílias, coincidentemente ou não, estejam inserida naquele seleto grupo, que venho notando e reportando, que nestas últimas décadas sempre estarem entre as que mais individuais ganhadores de grupo são capazes de produzir. O que isto sugere? Que o rio sempre corre para o mar e quanto mais alto é o nível de competitividade, maiores são as suas chances de sucesso. Nossos correntistas e patrocinadores, que recebem semanalmente o resumo destes resultados sabem disto. Porém aqueles que acompanham o blog, também. Basta juntar os dados e constatar a veracidade do que acabo de escrever. Logo, o que fazer? Eu diria que copiar.

Você que tem, como todo mundo, uma gama infinita de oportunidades de selecionar uma égua para seu rebanho, por que não determinar parâmetros onde apenas descendentes destes 18 ou 20 segmentos, devam constar de sua lista inicial? Por que tentar nadar contra a correnteza? Trauma infantil? Necessidade de provar sua masculinidade? Se estas linha, já não é de hoje, dominam Royal Ascot, Keeneland e Tokyo, por que deixariam de funcionar na Gávea ou Cidade Jardim?

E em relação a Oceânia, o mais difícil patamar de competividade dentro do Hemisfério sul? O que poderíamos comentar sobre as estruturas genéticas? Eu diria que um fato indiscutível. Das dez provas disputadas este fim de semana entre Austrália e Nova Zelândia, nove foram vencidas por elementos que traziam em seus pedigrees, pelo menos uma duplicação em ponto de força. Sete, pelo menos duas. Seis com no mínimo três, e duas com quatro. Assim sendo, eu diria que esta forma de se induzir cruzamentos, deixou de ser apenas uma experiência e passou ao nível internacional de necessidade.

Um correntista me perguntou semana passada se a afirmativa que imbreeds após a quarta geração seria mais forte, do que utilizá-las de forma mais próxima. Ouviu o comentário e me repassou. Eu diria que os responsáveis por Winning Cause, recente vencedor, este sábado, dos 1,700m do Lexington Stakes (Gr.3) em Keeneland, não parecem estar, nem um pouco preocupados com a possibilidade. Afinal, ele com esta maiúscula vitória, carimbou seu passaporte para o Kentucky Derby. E trata-se de um elemento imbreed em Storm Cat, na razão 2x3. Desta forma diria que força não lhe falta.

Se os criadores brasileiros agissem em conjunto, ou pelo menos em uma mesma direção, teríamos muito melhores resultados internacionais, o que faria nosso mercado mais forte e nossas chances de crescimento ainda maiores. E ai sim, poderíamos afirmarmos, somos, pois, fomos percebidos.