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quarta-feira, 5 de junho de 2013

PAPO DE PEDIGREE. A VALIDADE DA IDA DE GOING SOMEWHERE A FRANÇA


Havia gente que tinha John Hislop como um teórico. Ele na verdade o era, outrossim, um teórico que criou, foi proprietário e manager de um cavalo chamado Brigadier Gerard,  - um dos mais completos cavalos da história do turfe moderno - o que me faz acreditar que, pelo menos, a sua teoria funcionou na prática.

Eu tive o privilégio de um dia conversar com o senhor Hislop em Newmarket e sedento que sempre fui por informações, arranquei dele a descrição de vários cavalos anteriores a minha época. Em sua opinião Ribot e Nearco foram dois maiores cavalos que viu correr e assim ele os definia: Ribot foi moldado como uma perfeita máquina de corrida, tecnicamente era impossível de lhe achar uma falta, mas como a grande maioria dos cavalos italianos faltava-lhe em um todo, qualidade, como a existente na grande maioria dos cavalos ingleses. Quanto a Nearco, sua opinião foi a seguinte: ao contrário ele era um cavalo dotado de extrema qualidade, mas não era tão bem feito de trás como Ribot.

Resumindo, não existe o cavalo perfeito. Sempre existirão senões, em sua estrutura física, em seu temperamento, na forma de correr, em sua capacidade locomotora e principalmente em seus pedigrees. Frankel, que tive o ensejo de examinar detidamente em minha última viagem a Newmarket, pode ser considerado, um dos elementos que mais se aproximou da perfeição. Sea the Stars outro. Mas conta-se nos dedos da mão esquerda de um presidente brasileiro nascido em Pernambuco, aqueles que podem chegar a este estágio.

Conviver com as falhas e explorar as virtudes, passa a ser a responsabilidade de criadores, proprietários e profissionais, que interagem na vida de um cavalo de corrida. Peças frágeis e velozes, que a cada toque no chão, prenunciam poder ser este o último. Logo, querendo ou não, cavalo de corrida tem prazo de validade. Quem não o souber aproveitar, perde a viagem.

Amanheci ontem com a noticia que Going Somewhere, foi a algum lugar. E este lugar foi a França, acredito eu Chantilly. Em minha última passagem por Cidade Jardim, ouvi muitas criticas à capacidade locomotora deste elemento. O ceticismo era aparente, a inveja também. Havia gente, que chegou ao detalhe maléfico de afirmar com um toque de ludico cinismo, que o filho de Sulamani, achou o seu Pellegrini. Pois bem, eu que já estive associado profissionalmente em mais de um oportunidade a ganhadores do Pellegrini, afirmo, sem medo de êrro, que ninguém acha o Pellegrini. Pode até ser que o Pellegrini ache você. Mas nunca na ordem inversa.

Quanto ao fato aludido por um outro, o que fazer lá, para ganhar dos Galileos, eu diria que isto não é um problema só de Going Somewhere. Trata-se de uma dificuldade mundial.

Temos que ter bom senso e acima de tudo uma noção realística das coisas. Gloria de Campeão, que selecionei ainda potro, era uma pintura de cavalo, mas que nunca conseguiu demonstrar em terras brasileiras, ser um elemento de exceção. Nunca este em minha lista dos dez melhores a quem estive associado. Não ganhou prova de graduação máxima no Brasil e teve que sofrer um pouquinho para ganhar a sua Dubai Cup. O fez com méritos, outrossim, há de se levar em consideração que ele tentou, se não me engano, em outra oportunidade, chegando na segunda colocação a mais de 20 corpos do ganhador. Mas ele achou o seu lugar. E está aí a importância de sua arremetida internacional. Naquela região do oriente, consagrou-se até em outro centro. Trazido aos Estados Unidos, não conseguiu levantar as patas, no Arlington Million.

Aceitando-se que cavalos acham o seu lugar, eu diria que Going to Somewhere achou o seu na Argentina, já que tranquilamente poderia ter ganho também o 25 de Mayo, se o seu jóquei, naquela oportunidade, estivesse mais atento ao trem de carreira e a quantos metros estava doando a alguns de seus adversários, ao decidir correr sempre por fora. Agora é hora do voô maior.

Conversei com o Benjamim e ao ser perguntado, emiti minha opinião. Pelas características demonstradas até o presente momento, Going Somewhere tinha uma maior chance de adaptação a Europa do que propriamente aos Estados Unidos, não só pelo traçado das pistas, como também, pelo pace e pelo habitat natural que o cercará, pois, San Isidro tem muito mais a ver com Chantilly do que com Belmont Park. Alguém pode estar curioso, por que citei o pace. Pois, acreditem, que na maioria das carreiras da milha e meia, o pace é bem mais lento nos Estados unidos, que na Europa, o que prejudica em muito os cavalos que vem de trás, já que as retas são pequenas e sem subida.

Concordo que Going Somewhere, ainda não tenha sido devidamente testado em termos de clássicismo, pois, o que temos sentido nestes últimos anos, é uma total falta de stamina do lado argentino. Tanto na grama como na areia, ultimamente parelheiros nacionais tem invadido as terras platinas, e conseguido ótimos resultados. Mas isto não quer dizer que ele seja inepto as suas novas funções e que sua stamina seja produto da inexistência atual da mesma, no pais vizinho.

A Europa testará apenas sua classe e até que me provem ao contrário, só existe uma forma de fazê-lo: Correndo-o.

Seu pedigree tem inicio em Sulamani, uma elemento tipicamente europeu, de stamina impecável, que provou na pista, aquilo que seu pedigree emanava, sendo ele um filho de Hernando, em mãe Alleged, em mãe Northfields em mães subsequentes por Relko e Mahmoud. Descende em termos de linha materna do grande binômio Polamia-Mia Pola, respectivamente suas quarta e terceira mães. Seu avô Special Nash foi um cavalo de nível médio na Itália, onde ganhou cinco de seus seis compromissos, sendo um deles uma prova de graduação 2, os 1,800m do Guido Berardelli em Roma. Embora só tenha ganho dos 1,500 aos 1,800 metros, Special Nash, teve curta campanha seu pedigree era embasado em  stamina, já que se trata de um filho de Nashwan, em mãe Northfields, em mãe Sassafras, em mãe Ragusa. Logo, a massiva existência de ganhadores do Arco , King George e derbies europeus, imperativa em seu pedigree, para mim, não deixam dúvidas sobre a sua stamina.

O pedigree de Going Somewhere esta consubstanciado numa linha materna sul-americana, a 10-d, tendo como ponto de maior força, a grande égua argentina, Bola de Cristal. Em termos de estrutura genética, ele me parece armado, já que é imbreed em Northern Dancer 5x5x5, em Mr. Prospector 5x5 e em Northfields 4x4. Logo, volto a repetir, não há nada a se temer, em relação a stamina de Going Somewhere. Ela existe, independentemente da falta momentânea da mesma, na vizinha Argentina.

Como disse anteriormente conversei com o Benjamim, que parecia estar pendendo em mandar seu cavalo para o treinador David Smaga. Pode até ser que este profissional não esteja em evidência neste exato momento, mas treinador na França, é que nem restaurante em Manhattan, se não tiver competência, não se estabelece.

Assim penso eu, que antes de criticar, é hora de acreditar. Temos que sair pelo mundo, se quisermos lançar o nome do cavalo nacional alhures. E temos que agradecer que existam ainda proprietários, afim de arriscar e pagar para ver. Se tudo der errado, vale até como experiência, e uma forma de mensurar sua criação, em termos internacionais.  Romarin, Sandpit e Siphon, foram os arautos de um novo PSI made in Brasil. Por algum tempo, diria terem sido os responsáveis, por muitos dos sucessos que se seguiram. Hoje a coisa está um pouco esmorecida pelos lados norte-americanos. Hard Buck, que me desculpe o senhor LuiZ, conseguiu provar nossa competitividade chegando a quatro corpos no King George, da mesma forma que Much Better, já o havia feito anos antes no Arco, chegando a seis corpos. Foram experiências que trouxeram subsídios. E isto é um inicio. Um inicio melhor do que ficar no Brasil, correndo os Grande Prêmios Brasil e São Paulo, até os sete anos de idade.