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HARAS ERALDO PALMERINI a casa de Lionel the Best (foto de Paula Bezerra Jr), Jet Lag, Estupenda de Mais, Hotaru, etc...

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HARAS CIFRA - HALSTON POR MARILIA LEMOS

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HARAS RIO IGUASSU A PROCURA DA VELOCIDADE CLÁSSICA - Foto de Karol Loureiro

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HARAS SÃO PEDRO DO ALTO - Qualidade ao invés de Quantidade

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STUD YELLOW RIVER - Criando para correr

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sábado, 1 de junho de 2013

PEQUENO PAPO DE BOTEQUIM: O QUE É DIFERENTE DE VOCÊ, NÃO QUER NECESSÁRIAMENTE DIZER QUE SEJA FEIO. PODE SER APENAS DIFERENTE

Eu vivia em uma ilha e juro a vocês que não sabia. E aqui entre nós, foi muito difícil, mesmo para mim, que na época me julgava preparado, a admitir este fato. Eu tinha 27 anos, como proprietário já havia ganho as minhas provas clássicas e como agente, embora engatinhando, tivera um excelente começo. Achava que sabia tudo, e mais do que isto, acreditava, que aquela primeira ida para mim a Lexington, no ano de 1977, serviria apenas para corroborar aquilo que acreditava.

Lembro-me como se fosse hoje, quando adentrei na Gainesway Farm e examinei os dois primeiros reprodutores em solo Lexintoniano; Lyphard e Riverman. Extasiei-me. Eles eram pequenos, feios de mão, de ínfimo poder muscular, enfim, não preenchiam aquilo que eu achava ser necessário para cavalos de tão importantes envergaduras, como haviam sido em pista e o eram reprodutivamente.

Pois bem, em três dias de exames de outros reprodutores e depois de ter assistido a vitória de Seattle Slew em Churchill Downs, eu me senti que nem naquela história, que considero a mais bonita de nossa raça, quando uma menina de 15 anos, ainda virgem e noiva de um senhor mais velho, que a dois mil anos antes, no meio da noite, foi acordada com a visita de uma pomba, ou um anjo, sei lá, lhe avisando que ela teria um filho, mesmo não sendo obrigada a ter nenhuma relação sexual. E que aquele seu filho iria mudar o mundo. Imaginem seu noivo, ao tomar conhecimento daquela inusitada situação, na qual entraria apenas com o nome e as despesas, situação esta imposta que foi por um poder, que talvez ele nem mesmo achasse que existisse. E se existisse, possivelmente não acreditasse.

Pois é, juro que foi assim que me senti ao tomar conhecimento desta nova realidade a milhares de quilômetros de meu mundo, que só agora reconhecia, não passar de uma ilha. Acabara de ser deflorado, por aquela visão, que simplesmente desmoronou com muitos de meus conceitos, derrubou com meus dogmas e me fez ver que eu pouco sabia e muito teria que vir a aprender, se a idéia fosse evoluir na atividade que escolhera para sub-existir.

Passaram-se décadas. Eu neste ínterim, para o continente me mudei e sempre que volto a ilha do turfe que o Brasil se tornou, volto a sentir na carne, que ainda vivemos à base de dogmas e visões não realísticas do que são os verdadeiros alicerces e conceitos de uma atividade cuja série histórica delimita quais são os padrões vigentes para se chegar onde se quer. Nossa criação mudou de bom para melhor. O esmero continua e a tecnologia foi absorvida. Mas, em sua grande maioria, ainda no campo. 

Desculpem a fraqueza, outrossim, muitos ainda nutrem visões, que verdadeiramente são coisas que com os resultados atuais, seriam vistas pela turma aqui do continente, como verdadeiras alucinações. Como aquele profissional de veterinária, que chegou a mim, em Cidade Jardim, e comentou que ficou decepcionado, ao ir a Coolmore e ver Galileo ser retirado de sua cocheira: Renato, ele é pequeno e insignificante. Pois, imaginem este mesmo senhor, décadas atrás tendo o ensejo de ver Northern Dancer sair da sua em Maryland? Seria como receber uma pomba, avisando que sua noiva, ainda virgem, receberia a visita da cegonha, para gerar um ser, que viria a ser o salvador da humanidade.

Henrique VIII fez a raça chegar a um determinado biotipo, partindo de cavalos pequenos, todos, descendentes dos cavalos de origem árabe. Poderia até ser visto como um processo artificial. Pois bem, o tempo tratou de trazer de volta, parte desta nova raça, a seu tamanho inicial, apenas com muita mais potência física e com perda de stamina, mas ganho de velocidade. E querendo ou não, ela está dominando. Se não tivesse vacinado contra as malidicências, certamente nem teria ido examinar Roderic O'Connor e Holy Roman Emperor. A maneira pela qual me foram descritos, era para chocar até o mais vivido dos turfistas. Um deles, recebeu como melhor qualificação, a de ser um anão de boa cabeça. O outro um porquinho da Índia inchado. Ouvi, examinei, e vi, que eles fazem parte daquilo que a modernidade exige, como um dos atributos, para se chegar aos mais importantes winners circles ou enclosures, da vida.

Não creio que Edward Taylor estivesse pensando nisto quando mandou que a melhor égua a ser apresentada em Tattersalls viesse a ser adquirida para ele, independente do custo que ela viesse a ter. Esta égua era então, na opinião de seu agente, uma Hyperion cheia de Nearco. Ele pariu e foi coberta novamente pelo mesmo cavalo, cruzou o oceano, e no Canadá gerou a um champion sprinter, que anos depois, em seu primeiro ano de serviço, se não me engano ao receber sua última égua, foi capaz de gerar a aquele que viria não salvar a raça de cavalos de corrida, mas sim ditar uma nova etapa para ela. Pena que exista ainda gente, que confunda tamanho com aptidão. E qualidade com volume.

Vejo o grande criador Edward P. Taylor em determinado momento, na mesma posição do carpinteiro José, que assumiu uma paternidade que não era sua, importada sem o seu consentimento por uma entidade sureal. E mesmo assim ele fugiu para o Egito para salvaguardar sua família da fúria de Herodes e entrou para os anais da história, como o pai do maior homem de nossa história. Taylor não conseguiu vender a Northern Dancer, quando ainda yearling, e mesmo depois de ter ganho as duas primeiras provas da tríplice coroa norte-americana, sendo a primeira em recorde, teve que confinar seu campeão em Toronto, no Canadá, pois, na terra onde triunfara, Northern Dancer seria reprodutivamente crucificado. Até os grandes centros turfisticos são capazes de cometer ledos enganos. Somente depois, o sucesso ratificou a sua volta aos Estados Unidos, e foram primeiramente os europeus, os únicos a sentir a importância deste novo ser. Diria ser esta, a segunda história mais bonita a ser contada,

No Brasil,  infelizmente, o peso de um animal é ainda importante, na visão de uma boa parcela de investidores. Nos Estados Unidos, e mesmo na Europa, nem balanças existem nos principais hipódromos. Estariam, aqueles que dominam o mercado a mais de um século, errados? Poderiam eles melhorar, suas respectivas criações, se atentassem ao uso ostensivo da balança?

Até hoje, não foi descrito em documento oficial nenhum, pelo que tenho conhecimento, com qual peso Jesus Cristo veio a este mundo. Aliás pouco se sabe de sua existência, a não ser suas últimas semanas, nas quais ele parecia ser magro, não muito alto e sem grandes aptidões atléticas. Embora, há de se convir, que carregar uma cruz, nas condições a que veio a ser obrigado, exijam no mínimo coragem e stamina. E estas, ele provou ter. E ele veio, e saiu de nosso mundo, mudando a sua face. Por isto existe um época antes e depois de Cristo. Como existe hoje, em relação a criação mundial de cavalos de corrida, outra época; antes e depois de Northern Dancer.

Precisamos viajar mais e quando isto acontecer não se surpreender com o tamanho, a expressão, ou mesmo os aprumos de determinado consagrado corredor ou reprodutor e sim tentar imaginar como ele conseguiu ser o que foi, com parâmetros físicos, que até ali você achava serem descartáveis em seu conceito de eleger cavalos, para a pista e para o breeding-shed. Temos que nos despojar de nossos dogmas e aceitar o sucesso daqueles que se impuseram em centros mais adiantados. O que é diferente de você, não quer necessariamente dizer que seja feio. Pode ser apenas diferente.