Uma das primeiras provas que tive a respeito da inexistência de uma real velocidade através da distância em nosso meio, foi com a égua norte-americana Miss Fritchie, uma Hoist the Flag, que selecionei e adquiri para o haras Larissa, nas vendas de liquidação de Nelson Bunker Hunt, em Keeneland. Miss Fritchie gerou com dois reprodutores, - que não primaram pela transmissão de classe - a pelo menos dois elementos de extrema velocidade desdobrada na distância: Mr. Fritz, um Dance Bid que corria como um possuído - e nem sempre fazia a curva - e Tallon, um Janus, que igualmente ditava a sorte da carreira e ganhou o GP. São Paulo em recorde. A forma como corriam era a mesma de Clackson. Mandando na carreira, quebrando os demais, com parciais antológicos. Foi uma égua que me marcou e solidificou meu conceito da importância da velocidade através da distância. Conceito este solifificado com o GP. Brasil ganho de ponta a ponta com Belo Acteon, a poucos anos atrás. Mas não é bem isto que quero escrever hoje
Com o passar dos anos, existe uma tendência natural humana, de se dormir menos. Mas esta lei não vigora apenas para os de mais idade no Lorolu, onde o desgraçado do seu galo, não deixa ninguém passar da cinco e meia da manhã. Em ponto, todas as madrugadas ele solta seu brado retumbante e para os mais resistentes, volta a repeti-lo pontualmente as seis, as seis e meia e as sete. O despertador se torna desnecessário, mas o diábo do galo, religiosamente de meia em meia hora o lembra de sua existência. E ai eu me ponho a pensar. O que faz galos, no mundo inteiro acordarem os outros, sempre ao final da madrugada? E a resposta me parece límpida: a lei natural das coisas.
Não se pode ir contra a lei natural das coisas. Elas existem se transformam em leis, não por obra do acaso do Espirito Santo. Ela nascem, crescem e se eternizam, pela simples naturalidade de sua existência. Resumindo, alguém as criou com o intuito delas darem curso natural as demais existências. Se não fosse o galo, talvez tivesse de ter sido o cachorro, ou quem sabe a manada de bois. Mas Deus, sempre sabe o que faz, e incumbiu o galináceo, cuja sonoridade pelo menos é aceitável, a tornar-se o menestral da obra.
Este é o ponto onde quero chegar. Existe na vida, um lei natural para as coisas, mas você pode de alguma forma inserir seu toque na mesma e trazer para si, o que de melhor esta lei tem a proporcionar. Explico-me. O que faz alguém ganhar uma corrida: a resposta é clara, chegar na frente. Afinal, este é o intuíto da disputa. E o que faz você chegar na frente? O detalhe de você ter sido mais rápido que os outros dentro de um percurso pré determinado. E qual é o agente indutor desta rapidez? Eu diria que velocidade.
O cansar menos é uma decorrência genética e da preparação profissional do elemento. Mas você podem ter certeza, que é a velocidade que separa os leões dos gatinhos selvagens. Não creio que fugir da velocidade seja a melhor solução para se garantir a stamina. Saber dosa-la sim. Aquele que no final vem, e passa seus adversários não por mérito próprio, mas sim pelo simples fato que os outros estão parando, não parece ser o elemento a se confiar reprodutivamente. Da mesma forma que o sopeiro, aquele que tem que ser contido no final do pelotão, para uma arremetida apenas nos 300 ou 400 finais, demonstra a meu ver uma deficiência orgânica: a de não poder fazer a máquina de seu corpo funcionar de forma continua por razoável espaço de tempo e assim maximiza seu esforço, somente em um período restrito, o da explosão.
O velho Khan, com sua celebre resposta, velocidade, velocidade e mais velocidade, quando perguntado o que mais procurava em um cavalo de corrida, para mim sintetizou a lei natural das corridas de cavalos. Ele “ululanizou” o óbvio. E até que possam me provar ao contrário, a definição do que são as corridas de cavalos de corrida é minimalista: ganha quem chega na frente.
Quanto mais esta velocidade for desenvolvida através da distância, maiores serão as suas chances de chegar com sucesso as chamadas provas clássicas. O problema, é que a velocidade é um dom. Não um bem a ser adquirido ou assimilado. O cavalo de corrida a tem ou não. É algo constante do código genético, desde o momento em que o útero foi fecundado. Assim sendo, a verdadeira função do treinador é trazer a tona a velocidade existente dentro de cada animal. Aquela aptidão que é natural, pois, ninguém consegue inserir velocidade em um animal.
Outrossim, a engenharia do código genético é de sua responsabilidade na hora de idealizar o cruzamento. Como em uma receita de bolo, você insere os ingredientes que considera certos e espera que a lei natural da concepção, fertilize sua iguaria, colocando as coisas em seus devidos lugares. Você não tem controle sobre o resultado final, por isto irmãos inteiros nem sempre apresentam as mesmas aptidões e mesmo característicad físicas. Outrossim, pelo menos você como criador, tem o poder do direcionamento, quando reune os ingredientes. E para aqueles que possam ter dúvidas, alerto, que não dá para fazer bolo de chocolate, sem chocolate. E a velocidade é o chocolate nesta situação.
Se o galo canta, o cavalo corre. A diferença, é que se você não cortar as cordas vocais do galo, ele o acordará até o final de seus dias. No caso do cavalo, existe uma forma de dosar em treinamento, esta velocidade, ensinando-o a como fazer valer positivamente sua maior aptidão. Quando ela não existe, explora-se sua segunda aptidão, a de de aguentar o aumento da distância e desta forma esperar que contingências que existam em uma determinada prova, o façam um dia vencer.
Sempre fui cético em relação a aqueles que se valeram das contingências, para atingir seus objetivos. No caso do cavalo de corrida, o elemento que achou a sua prova, dificilmente vai achar o sucesso no breeding-shed, pois, na maioria dos casos, não se pode transmitir aquilo que não se tenha. Só um salto atávico de um ancestral, teria a capacidade de mudar a situação. Mas sinto afirmar, que os saltos atávicos não são frequentes e muito menos dotados de grande eficácia. Dai a utilização das duplicações em chefes de raça e matriarcas, para se revigorar certas aptidões. As vezes funciona, as vezes não. Todavia mal não faz e existe sempre a chance de um aumento de probabilidades em seu sucesso. Pense em um momento. Como cruzar um indiano com um japonês, e deste cruzamento fazer nascer a um louro de olhos azuis? Não seria mais simples cruzar dois lourinhos de olhos azuis? E com certeza, desta nova concepção, não sairá um indiano e muito menos um japonês.