O brasileiro tem um compromisso com a vitória. Ele gosta mais de ganhar do que o próprio esporte. É assim no futebol, onde um gol de impedimento aos 47 do segundo tempo, trás muito mais prazer do que uma goleada de 4x0 em tempo normal. Um com a mão, nem se fala…
Nos acostumamos a ganhar. A ganhar na Formula 1 com Ayrton, Emerson e Piquet, hoje nos sentimos na obrigação de ganhar no volley, independentemente do sexo e da quadra - praia ou ginásio - e por algum tempo tivemos um gostinho no tennis com o Guga e outro no basquete com o Oscar. Brilhos esporádicos. E agora, embora o judo, sempre nos traga a alegria, esta alegria desapareceu no salto em distância e sempre foram turfe poucas.
A gente como ser humano, começa a tomar o rumo aos 18, 19 anos. Nesta época minha vó dizia: Faça o que eu digo, mas nunca diga como o fez. Por incrivel que possa parecer, foi um conselho que nunca segui. Eu sempre digo o que faço. Por que? Não sei. O que sei é que aos 18 anos, os de minha geração no Rio de Janeiro tinham excessivas preocupações, tais como a ditadura militar, a guerra do Vietnam, sexo e se o Brasil no ano seguinte voltaria a dominar o futebol, como o fizeram em 58 e 62. Estavamos em 1968 e não faziam sequer dois anos que havíamos fracassado na Inglaterra. Mas eu tinha uma visão do mundo distinta. Tinha poucas preocupações e duas delas eram as duas últimas de todos. E necessariamente nesta ordem.
Eu estava a um ano de me livrar de 12 anos de educação jesuíta do Colégio Santo Ignácio, de finalmente penetrar em uma faculdade e como diria o meu grande mestre na arte de pensar, Mariano Villar Urquisa, tinha plena consciência que um homem, quando não tem problemas, cria um para si. E eu parti para três: primeiro sair da casa de meus pais, segundo desistir de engenharia e tentar a arquitetura e o pior de todos, comprar um cavalo de corrida.
Quem é de minha geração e morou no Rio de Janeiro, tem plena consciência que no final dos anos 60, se você não tivesse um carro e dinheiro, era obrigado a ter sexo, ou nas areias de Ipanema e Leblon, ou na garçoniere de um amigo mais velho. Moteis só em São Conrado. Eram caros e não haviam ônibus para o deixar lá. E embora para a corrida de submarinos no Arpoador, não era necessário dinheiro, era básico o diábo do carro. Dinheiro, só o do Genial, que tinha seu carrinho de cachorro quentes lá estacionado, para repor as forças dos amantes.
E eu não satisfeito, aluguei com três amigos paulistas, uma dois quartos e sala na rua Montenegro, coladinho ao Veloso. Por que? Por que para mim sexo na praia, era desconfortante, e Ipanema era a Montenegro e seu must, o Veloso. Localizado no segundo andar e sem porteiro, pois, nunca quis perder a perspectiva do mundo que me cercava, era o meu reino e com isto não havia problema de entradas e saidas, que alguma vizinha carola iria criar. Cobrimos as paredes de cortiça grossa, colocamos cortinas grossas e deixamos rolar. Dormir, era a única coisa que nós não faziamos.
Mas me faltava algo. Em 1969, Saldanha estava a um passo de perder seu emprego na CBF. Os Beatles anunciaram sua separação. Sharon Tate foi assassinada por por James Mason, que era a cara de um de meus room mates. O Fluminense foi campeão e Woodstock mobilizou o mundo jovem. E eu? Bem, já nesta época eu convivia um grupo de amigos, cujos pais tinham cavalos de carreira. Ia frequentemente a Gávea e quando me dei por conta era sócio, com outros 18 amigos, de um cavalo de corrida de criação dos Paula Machado. Foi assim que tudo começou. Num sindicato, que como era esperado, não deu certo. E não deu certo, pois, não havia conhecimento algum. Apenas a vontade de vencer. E isto só não basta. Foi quando decidi aprender algo e a primeira coisa que assimilei foi que sempre haveriam revoluções na forma de cruzar, medicar e correr cavalos de corrida, mas que depois de algum tempo, os revolucionários, tornavam-se iguais a aqueles que haviam combatido, pois, o mais importante de tudo, o conceito, mantinha-se o mesmo. Mudavam-se os nomes, mas não a razão de ser das coisa: a velocidade. E mesmo quando o grande Prêmio brasil, ainda era disputado na distância de 3,000 metros, eram aqueles que possuíam a velocidade através da distância que levavam a melhor. Isto é, os argentinos e chilenos.
Por incrivel que possa parecer, o grande Prêmio Brasil, era a maior festa social daquela que era considerada a Cidade Maravilhosa. Eu contava os minutos para que o momento chegasse. Mas era uma festa que não nos pertencia. Nas décadas de 50 e 60 nos preparavamos a festa, recebíamos os convidados, todavia eram eles - argentinos e chilenos - que se divertiam e levavam para casa o cheque: Tirolesa, Pontet Canet, Gualicho, El Aragones, Manganga, Tatan, Don Varela, Espiche, Arturo A, Cencerro, named. E terminamos a minha primeira década de lucidez, com Arsenal e Kamen. Eles sobravam na turma.
Sem o conhecimento e a lucidez que hoje acredito ter, coloquei uma coisa em minha cabeça. Qualquer cavalo que fosse a mim profissionalmente ligado, tinha que ter velocidade. Ao galopador, o desprezo, pois a graça em ter cavalos de corrida, para mim que morara ainda no Brasil seria ganhar o Grande Prêmio Brasil, o Grande Prêmio São Paulo e o Carlos Pellegrini. E os argentinos e os chilenos, haviam me provado que sem a tal da velocidade estendida para a distância, não se chegava a lugar nenhum. E, querendo ou não, este era o meu universo. Mas para tal teria que afiar meu olho e enriquecer meus conhecimentos no tocante a pedigrees. E foi o que fiz, e tendo fazer até hoje.
Ganhei estas três carreiras e até o São Paulo, de tabela - já que selecionei a mãe de Tallon - o fiz em mais de uma oportunidade com elementos a quem era profissionalmente ligado. E por isto a disputa deste ano, para mim é um desafio. Um desafio a ser vencido. Não importa, que tenha agregado a meu curriculum, elementos e filhos de elementos por mim selecionados, as conquistas da Dubai Cup, do Kentucky Derby, do Preakness, e quase meia dúzia de Breeders Cup. Não importa que já tenha vindo a disputar e chegado na foto de um King George e de um Arco. Cada carreira é uma nova etapa. Outro desafio. A sensação às portas de uma grande carreira, sempre mexe com você. E é exatamente isto que sinto hoje.
Que tenhamos um grande GP. São Paulo. Que ganhe o melhor e se houver chance que o melhor seja o meu, melhor ainda...
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