Se havia uma coisa que Ricardão não tinha condição de enfrentar era mulher chorando. Fora assim com sua mãe, com a Lurdinha e agora com Edith, que ainda por cima, chorava com lágrimas de esguicho. Mulher brava ele podia até retrucar, mas chorando…
- Eu acho que me expressei mal...
- Não você disse com todas as letras que preferia a cachorra.
- Não foi bem assim...
- Foi sim. Eu ouvi. Isto é desumano!
- Mas você não me deixou nenhuma alternativa…
- Quer dizer que para você há outra alternativa?
E voltou a esguichar. Melhor dizendo, a uivar.
Giselle que nada entendia, colocou a patinha no joelho de Edith. Ledo engano. Esta imediatamente afastou-a e de pé correu para o banheiro, levando evidentemente o telefone sem fio. E lá trancou-se. Ricardão sabia que agora seriam horas.
O que fazer numa situação como aquela? Estava na cara que deveria mentir. Por atitudes impenssadas, perdera seu apartamento no Leblon para Lurdinha e para aquele vizinho advogadozinho que ainda a comia. Tinha que ter tato, ou aquela maluca seria capaz de lhe sugar até as cuecas.
Olhou para Giselle e murmurou:
- Temos que ter cuidado.
Levantou-se e trancou no armário da cozinha todas as facas e com rapidez escondeu debaixo do colchão seu 38. Edith era uma mulher imprevisível, e afinal de contas era PT. Teria ela também o hábito de matar aqueles que poderiam ser testemunhas contra ela?
Nem para seu advogado poderia ligar. O que fazer?
Mas seus pensamentos foram cortados pela carrilhão da porta. Quem seria? Era o João Vicente. O vizinho, que todos diziam ser homossexual, mas que adorava a Giselle e de vez em quando saia com ela para que ela fizesse suas necessidades. De cara o João notou que algo estava errado. Primeiro que foi o Ricardão que o atendeu e segundo que olhou para dentro da sala e não viu aquela cara de poucos amigos que a Edith fazia, sempre que ele vinha buscar a Giselle.
- Oi, bonitão.
O Ricardão odiava aquele comprimento. A Edith mais ainda. Mas era força do hábito. O João Vicente fazia isto inclusive com o senhor Aristides, que tinha 92 anos, não tinha uma perna e conseguia ser mais mal humorado que a Edith.
Ricardão fez ver a ele, que não era para entrar e o levando para frente da casa, explicou tudo que estava acontecendo. Tim-tim por Tim-tim. Do inicio ao fim, sem perder um único detalhe sequer. João Vicente a tudo ouvia, demonstrando atenção e quando o relato terminou, coçou a cabeça e perguntou preocupado:
- Mas você trocaria a Giselle pela Edith?
- Não é bem assim…
- Claro que é assim, e eu vou logo lhe dizendo, não pensaria duas vezes. Ficava com com a Giselle.
- Eu não tenho tanta certeza…
E pela primeira vez explicou todas as agruras de seu primeiro casamento. O de verdade. As pessoas precisavam saber das prerrogativas. João Vicente voltou ouvir com atenção e terminado o relato, foi claro.
- Mulher sempre foi e sempre será um problema. Vide, Eva, Dalila, Dilma... Está claro que você irá perder também esta casa. Logo eu diria que deveria ser prudente. Prepare a sua saída e vai colocando pouco a pouco Edith fora de sua existência.
- Mas ela não vai aceitar que eu fique aqui com a Giselle.
- Isto não será problema. Eu levo a Giselle lá para casa e você antes e depois do trabalho, passa lá.
Ricardão não podia acreditar no que ouvia. Aquele cara caíra do céu. E comovido perguntou:
- Você faria isto por mim?
- Isto e muito mais. Você sabe disto…
Aquelas palavras haviam realmente caído do céu, mas aquele olhar glamuroso lhe alertou, que para tal ele teria que mergulhar em um inferno.
Enquanto o diálogo comia solto na entrada da casa, Edith saiu do banheiro, foi a janela, constatou o que estava acontecendo e sentiu que aquele era o momento para se livrar daquele transtorno que a seu lado estava agitando o rabo que não tinha.
Trataria aquele problema exatamente da maneira que sua irmã - que estava encarcerada em angu - havia lhe aconselhado. Tinha que ser rápida. Para a policia diria que a cachorra a havia atacado. Mas onde estavam as facas? Não havia uma sequer na cozinha. Correu para a mesinha de cabeceira do quarto. Onde estava o 38 do Ricardão? Será que ele levara para o escritório. Como iria fazer? O remédio para matar ratos! Sim esta seria a solução. Mas como faria para a Giselle o engolir? Na água, com certeza. Correu, pegou o veneno e o derramou naquele cafona potinho de água. Notou que o liquido ficou um pouco viscoso. Mas pouco se importou. Mas seria o suficiente? Talvez fosse melhor colocar mais. Uma dose para matar leão. E derramou o resto do remédio.
Lá fora, Ricardão e João Vicente chegaram ao últimos detalhes do plano. Voltando a casa encontraram Edith tranquila vendo televisão.
- Olá João, como vai a vida no salão?
João era manicure de um salão do bairro, mas de bobo não tinha nada, pescou imediatamente que naquela falsa afabilidade, tinha algum caroço. Sorriu, comprimento de volta e chamou por Giselle. Ela não respondeu. Como sabia pelo Ricardão que por precaução havia trancado todas as facas e escondera seu revolver, pousou seus olhos no pote de água de Giselle, enquanto Ricardão contava a Edith o que havia sido combinado com o vizinho.
- Querida você tem razão. Vou deixar a Giselle na casa do João Vicente até que ela venha a parir e desmame suas crias e depois a dou a um amigo.
Edith sentiu uma dor no coração. Afinal não fora trocada por uma cachorra e se pôs a chorar.
- Não fique nervosa, querida. Tudo já passou e será resolvido.
Prestativo como sempre foi, João Vicente imediatamente apareceu na sala com um copo de água na mão. E lhe passou a Edith lhe avisando qu tomara a liberdade de colocar um pouco de açúcar para acalma-la.
Ela sorriu e tomou a água, que desceu pela garganta com um gosto estranho, foi quando Giselle voltou a sala demonstrando que nada havia lhe acontecido.
Edith imediatamente olhou para o copo e viu a mesma coloração viscosa e antes de cair para trás, balbuciou:
- Não fui trocada apenas por uma cachorra, mas também por um viado…
O socorro não chegou a tempo.