Imaginem o ser humano que pela primeira vez olhou para o céu e além das nuvens e dos pássaros pode divizar uma máquina de metal sobrevoando sobre a sua cabeça. E aquele outro que ouviu, pela primeira vez, o tilintar de um telefone ou o som de um rádio. Hoje pouca gente ouve o rádio. A televisão tomou conta do pedaço. Veio o Cinema e deixou o teatro em uma segunda posição, dentro do gosto popular. Tudo gerado por mudanças e a capacidade de nós humanos inventarmos e aceitarmos elas.
Nos pedigrees do cavalos de corrida estas surpresas são ainda maiores, pois, as mudanças, são constantes e um cavalo que era considerado chefe de raça a uma determinada época, pode virar artigo de extinção, meio século depois. Sobre este tema, os exemplos são muitos e eu tenho os citado aqui em diversas oportunidades. Da mesma forma, quase sempre as grandes linhas persistem no âmbito clássico, não por aqueles filhos melhores de um determinado reprodutor - aqui entendido, cavalo ou égua - e sim por aquele que menos se espera. Tesio notou isto muito cedo. Ele afirma que depois da terceira geração, a lâmpada queima. Hoje, pelo que pesquiso e constato, passou a ser - na grande maioria das vezes - duas e não mais três. Por que será? Não sei!
O que sei é que poucos são os motivados como a descendência de Nasrullah de pelo menos repetir por duas gerações o semblante daquele que melhor se saiu em pista. Mas mesmo assim, esta “exceção que deveria ser regra” advém apenas do ramo estabelecido por Bold Ruler, que foi indubitavelmente o melhor filho de Nasrullah, que como sei pai foi o melhor de sua tribo, dentro e fora das pistas.
Mas Bold Ruler não deu sua sequência natural por Secretariat e sim por Boldnesian, cujo filho Bold Determined, gerou ao excepcional Seattle Slew. E o estigma teve a sua volta realçada por intermédio de A. P. Indy, que como pai, foi o melhor de sua raça na pista e fora dela. Haveria um sincronismo concidente neste fato? Agora, quando parecia que a descendência de Grey Sovereign estava a caminho do brejo, o renascimento de Uncle Mo, e seus primeiros filhos, me fazem crer que por ali poderá haver uma continuidade.
Não creio, por exemplo, que Sadler’s Wells e Danzig, tenham sido os melhores filhos de Northern Dancer nas pistas, embora Northern Dancer tenha sido indubitavelmente o melhor filho de Nearctic, dentro e fora das pelas. Nijinsky, talvez o melhor filho, não parece ter vida longa. O mesmo pode ser dito de Nureyev e Lyphard, que se excederam na arte de produzir elementos excepcionais, mas não foram estes elementos que os distinguiram fora da pista e mantém, suas respectivas linhas, ainda vivas em termos clássicos. Danzig parece que vai vingar pelo menos a médio prazo, por intermédio de dois de seus velocistas, Danehill e Green Desert. Já Sadler’s Wells, por três de seus amantes das distâncias clássicas, Montjeu, High Chaparral e Galileo. Mas mesmo sendo inferior em pista aos dois primeiros, algo me diz que esta linha passará duas gerações adiantes, apenas graças ao último.
Passa-se o tempo e eis que Try My Best ressurge no horizonte por intermédio da veloz descendência de Dark Angel e Nureyev se faz presente, cada dia mais forte pela descendência de Pivotal.
É intrigante a forma como atua a transmissão linear. Ou melhor dizendo, como não atua. Seriam as linhas maternas, via a sequência de mães ou mesmo a importância de um pai - aqui representado como um avô materno - e sua tribo? Prezumo que sim.
Quando falo de pontos de força em um pedigree, procuro instigar criadores a duplica-los. Em forma de imbreeds e daquilo que conceituou-se de Rasmussen Factors. Não é uma inovação, no momento que Lord Derby, o velho Khan, Tesio e Boussac, para citar-se apenas os mais proeminentes, o fizeram e grande parte do sucesso de ambos é devido a esta tomada de posição. Assim como o fato dos velocistas estarem em moda hoje, reflete apenas um posição antiga, já que tanto Lord derby como o velho Khan, estabeleceram suas dominâncias e difundiram seus impérios graças a velocistas como Phalaris e Mumtaz Mahal.
Não vejo desdouro algum, em se respeitar a velocidade. Afinal ela é a base da transmissão. tenha um galopador e vocês me entenderão melhor. Não confundam galopador com matungo. Galopador é o cavalo dotado de classe, muitas vezes stamina, mas necessita que os outros diminuam sua velocidade para que ele possa se impor. este na reprodução não levaram ninguém a lugar algum. Hoje na Europa servem aos criadores de cavalos de corridas de salto.
Um cavalo que por aqui esteve, importado a Inglaterra, e que produziu ao maior reprodutor nacional de todos os tempos, Clackson, uma vez foi produto de uma discução que tive com um certo criador que por defender tão veementemente suas teses, para mim falidas, hoje já não mais cria. Como Sayajirao, o pai do referido I Say, fora um elemento galopador e de fundo, este criador taxou o reprodutor para o Brasil importado de um cavalo incapaz de ir adiante. verdadeiramente ele não foi um fenomeno reprodutivo. Longe disto. Mas diria que foi útil e produziu quatro ou cinco cavalos de altíssimo padrão. Clackson seu melhor filho, o foi também no breeding-shed, mas seus filhos, e olhem que houveram dezenas, pouco provaram fora das pistas. E atentem que Clackson transmitia aquela velocidade através da distância, que todos ansiâmos, e que seu pai igualmente tinha. No derby I say entrou na reta ponteando a carreira, resistiu, lutou contra tudo e contra todos e chegou ali pertinho dos ganhadores. E sabem quem ganhoue sta carreira? Pois é, pesquisem e verão que võ Adelina sempre esteve certa quando me aconselhava: “dizi-me com quem andas e eu te direi, quem és”.
Monsoon e Ahonoora, ressurgiram linhas que pareciam mortas e não o fizeram advindos dos mais dignos ramos de Blandford e Tourbillon. Logo deverão haver fortes pontos de força nos pedigrees de suas mães. Ghadeer nem de perto pode ser considerado entre os melhores 30 filhos de Lyphard, logo algo pode haver no pedigree de sua mãe. Seria Habitat, seu avô materno? Provavelmente.
Tentem analisar pedigrees por este prisma e estarão dando o primeiro passo para descobrir os pontos de real força nos mesmos. Duplicá-los ou não? Fica na vontade do freguês.
