"Eu ia escrever que a aprovação de Cristiano Zanin ontem para o nosso Supremo entrou para uma das páginas mais infames da nossa história, mas pensei melhor. Percebi que este desgastadíssimo clichê não nos serve mais, se é que já serviu para alguma coisa. Não existem páginas "mais infames" em nossa história. Somos infames desde sempre e na mesma proporção sempre. Nossa infâmia é o que temos de mais consistente e duradouro. Talvez seja algo para nos orgulharmos.
Zanin não é uma exceção, um ponto fora da curva, ou um equívoco. Sua aprovação é apenas a confirmação do Brasil que costumamos e sabemos ser. Qualquer desânimo não se justifica. A desesperança aqui é apenas um atestado de alienação. Sei o quanto é doloroso enfrentar este espelho, mas é necessário.
Poderia ser diferente, mas em uma realidade remota, onde fôssemos outro povo e outro país. O Brasil poderia não ter empossado na presidência um bandido condenado, corrupto até o talo, que recebe narcoditadores em solo pátrio, e que diz que o problema da ditadura vizinha é apenas de "narrativa". Sim, poderíamos ter escolhido um líder que tivesse pudor, ou um mínimo de comedimento, de indicar seu advogado PESSOAL para a mais alta corte do país. Poderíamos ter escolhido ser menos bananeiros. Mas repito: não fizemos porque não quisemos. Nós optamos pela canalhice funcional lulista.
Ainda que as urnas tenham sido realmente corrompidas, e realmente não reflitam os desígnios da maioria do povo, não nos iludamos com o poder e com o alcance do mal que nos cerca: quase a metade da população realmente defende ou justifica seu voto em um criminoso e ainda aprova o que ele está fazendo. Ninguém que permitiu esse estado de coisas se envergonha de ter votado em Lula, ou de ter se isentado anulando voto, facilitando a sua volta. Isentões e fazuelistas estão em coma moral desde 2022. Continuarão para sempre. É irreversível. E estamos cercados.
Entrem nas redes e encontrem frases jactanciosas como "votei em Lula para fazer isso mesmo, para roubar mesmo, e ponto, era o que eu queria". Não há saída para isso. Como desconstruir um mal que se orgulha de ser o que é? Como argumentar com gente eticamente anestesiada e que acha que realmente "não havia saída em 2022?". Acreditem: nosso problema não é de dissonância cognitiva generalizada, mas de psicopatia coletiva normalizada. Se você não se indigna, é porque está morto por dentro.
Claro que há responsáveis e culpados por este estado de coisas, mas nem vale mais a pena apontar. Para quê? Sabemos os nomes, as caras, até os endereços. Haveria saída sim, mas desde que o nosso jornalismo não tivesse abraçado a tese de que corrupção e ladroagem são males menores diante da demonização da política – ó, meu Deus, o real "grande perigo" – e que a política não pode ser determinada por episódios esporádicos de roubalheira. Erraram feio no diagnóstico e estão errando ainda mais nos prognósticos.
Por conta de uma mídia corrupta e um colunismo vendido, hoje criticar políticos, questionar o poder, e tentar aprimorar a democracia, são atos considerados crimes piores do que passar pano para ladrões, liberar assassinos, e empossar juízes supremos como Zanin, um advogado de porta de cadeia que cheira a Armani e gel no cabelo.
Se são estes os valores da nossa elite pensante, daqueles que deveriam encostar o poder na parede e melhorar o país, o que esperar do restante da população? Desistam. Cuidemos de nossas vidas. Ganharemos muito mais fazendo isso."
Paulo Cursino
Nota do editor