Porque hoje é domingo, nosso papo pretende ser longo e possivelmente esclarecedor, pois, penso que nunca levei em consideração o SE, em se tratando de coisas de turfe. Principalmente, volto a frisar, aos domingos, onde há mais tempo para se pensar.
Aceito que qualquer possibilidade deva ser analisada, mas nunca, tida como única solução, seja ela melhor ou pior, de um problema a ser resolvido. Sempre existirão outras de diferentes formas e matizes. Pois, soluções são produtos de um determinado momento. E momentos, como pessoas e fatos, também mudam.
Mas ao mesmo tempo sempre tive vontade de escrever sobre um fato acontecido na época de Tesio. Imaginem SE, Donatello, não tivesse ficado sem passagem até a entrada da reta, e não houvesse perdido por 3/4 de corpo o Grand Prix de Paris, para o french derby winner, Clairvoyant. Tesio teria não somente três, mas quatro elementos invictos. Quem no mundo seria capaz de igualar este feito?
Note-se que o turfe como atividade esportiva, teve seu inicio na Inglaterra, pode-se dizer que quando era ainda reconhecida como Albion, onde as corridas foram inicialmente organizadas e um Stud Book, que cataloga-se a raça, se fez necessário. Assim sendo, creio que Tesio deve ser respeitado, da mesma forma como as coisas que fez e escreveu: “... embora não possamos diminuir o número de ancestrais de um cavalo, nós podemos selecionar seus pais de alguma forma, que um particular ancestral possa ocupar mais do que um lugar em seu pedigree, o que assegura uma maior probabilidade que certas características desejadas, possam ser herdadas”.
Você pode ler 5000 pedigrees e não chegar a conclusão alguma, ou fazer como Tesio, que creio que embora não tenha lido a metade deste número, era capaz de sacar a importância que um ou vários imbreeds poderiam ter, na vida de um cavalo de corrida. Não quero dizer com isto que ele tenha sido o primeiro criador de cavalos de corrida que tenha atentado para a importância dos imbreeds, no desenvolvimento da raça. Todavia, posso com certeza afirmar, que foi um dos criadores a explorar os linebreeds, - imbreeds acima da quinta geração - com uma maior êxito.
Ao ter o privilégio de ver um selecionado por mim, ganhar a Dubai Cup, um ano depois de já ter sido segundo colocado nesta mesma carreira, outro ser segundo na Dubai Sheema e uma terceira igualmente segundo no Oaks local, certos detalhes passaram a ficar definitivamente claros para mim. Logo, acredito que de alguma forma, tenho alguma noção do que vou apresentar, a seguir. Mas vamos por partes.
Embora, Deus nunca tenha me dotado da capacidade de ver a alma de cavalo algum, havia algo em Federico Tesio, que definitivamente o diferenciava dos demais, de sua época e diria mais, de todas as épocas. Um dia voltando de trem de Baden Baden, horas após seu pupilo Scopas haver conquistado a mais importante carreira daquele hipódromo, e para mim de toda Alemanha, o Grosser Preis von Baden, Tesio disse a alguém com quem conversava, que quando ainda muito jovem, esteve na Patagonia, e lá ele estudou uma forma de ouvir as estrelas e falar com os cavalos. Confesso entristecido, que nunca estive na Patagonia e muito menos ouvi as estrelas e menos ainda, consegui uma resposta sequer de um cavalo, embora tenha tentado exaustivamente. Mas, em contrapartida, teria a dizer a meu favor, que todas as manhãs, eu penso andando e olhando para o mar. Ele não fala comigo, porém, me acalma e sua infinitude prova que a vida é uma eterna pesquisa consubstanciada em uma sucessão de escolhas.
Desta forma chego as minhas primeiras conclusões do dia que terei pela frente. Das decisões e atitudes que poderei tomar. Se estas serão as certas ou as erradas, a futura performance em pista, dos animais a quem estou profissionalmente atrelado, dará a única resposta.
Confesso que nem tudo que prego, sobre o que tem funcionado no hemisfério norte, pode ser adotado no Brasil. E por que? Por que durante muitos anos ficamos subjugados aos desígnios de uma grande agência britânica e de outras menores, igualmente a serviço do velho mundo, que trouxeram para o nosso pais, todo o lixo possível e imaginário, - evidentemente com caríssimas exceções e alguns golpes de sorte - que seria possível de se trazer. O que o Canadá, a India, a Oceânia e a África do sul rejeitavam, Eureka, para o Brasil era trazido. E tínhamos que engolir e fingir que degustava-mos com prazer. Era a sardinha, servida ao preço do caviar.
E o segundo ponto que penso ser importante de se frisar: certas coisas não acontecem no Brasil, pois, embora tenha gente capaz de examinar 5,000 pedigrees, é ao mesmo tempo incapaz de enxergar o que eles dizem. Todavia, sou obrigado a agradecer a estes mesmos senhores, o fato de me fizeram ver quando ainda jovem, que se no Brasil permanecesse e não tentasse alçar vôos maiores, seria como eles, anos adiante. E não existe coisa pior no turfe, que a estagnação.
Assim sendo, pelo que foi trazido para o Brasil - volto a repetir salvo raras exceções - a grande maioria de nossos mensageiros, não podem ser considerados fidedignos. E o pior, a coisa continua acontecendo, agora apenas "transvestida" por dois ou três grandes fornecedores de reprodutores, hoje existentes no mundo, que quando não encontram mais espaço na Oceânia para colocar seu peixe, atravessam o Atlântico e aqui vem aportar. E a preços astronômicos.
Completamente fora da realidade, que agora somado ao evento fenestro de uma taxação indigna por parte do governo, piorou ainda mais a situação. Desculpe meu francês, mas esta é a mais pura verdade. Assim sendo, deve haver engenhosidade da parte de nossos criadores, para saber distinguir o joio do trigo e torcer para o trigo agora separado, - mesmo não sendo da melhor qualidade - possa com suas sementes, semear novos campos. E é aí que a importação das reprodutoras era a meu ver, de suma importância.
O mundo vive hoje a dominância dos Northern Dancer. Eu sei, minha vó Adelina saberia se viva estivesse e até os detratores do óbvio são incapazes de discordar. Bem com raras exceções... O que resta a saber, é o por que? Eu diria que primeiramente por sua inolvidável capacidade de transmissão mas muito também, pela incapacidade de outras tribos se adaptarem as necessidades do mundo moderno. Porém, quem conhece história, não precisa estudar 5,000 pedigrees, para tomar conhecimento que o Northern Dancer de hoje, foi o St. Simon dos primeiros anos do século passado e Hyperion na metade deste mesmo século. E onde estes dois primeiros se encontram neste exato momento ? Como Greta Garbo, enterrados no Irajá!
Quem garantirá que Northern Dancer esteja tão forte pelas linhas altas daqui a 30 ou 40 anos? E se ele não estiver, outro leitor de 5,000 pedigrees, dirá que ele se extinguiu pelo excesso de imbreeds feitos sobre ele. Como até hoje fazem as viúvas inglesas que querem se vingar de Boussac, pelo estrago que fez no turfe de sua majestade, durante duas décadas. Apenas na imaginação daqueles que nenhum resultados obtiveram em pista e ainda pregam aquela idiota visão que do bom com o bom, irá advir o melhor, poderá se supor que não existam uma “coincidência” sequer, em 85% dos cruzamentos de ganhadores de grupo pelo mundo.
Eu acho que de uma forma ou de outra, tive o privilégio de trazer para o Brasil, potrancas que correram muito e éguas que produziram cavalos que corriam muito. Se não foram muitas, certamente foram em um número suficiente, muito superior do que qualquer outro agente do ramo. Isto não é uma hipótese. Isto é um fato que pode ser respondido com números.
Vejam o que Aga Khan e a Juddmonte Farms têm feito modernamente pelo turfe mundial em termos de aumento da qualidade genética. Certamente tanto como a Godolphin e se levarmos em consideração tamanho e investimento, no mínimo em um mesmo patamar da Coolmore. A técnica de cruzamentos, dos dois primeiros citados, não é difícil de ser detectada. Não existe uma fórmula. Mas sim um padrão . A chave passa a ser identificá-lo e copiá-lo, sem o material que eles dispõem depois de anos de depuração genética. Igualmente há de se convir, que embora não seja fácil se ganhar provas importantes no Brasil, é ainda mais simples do que fazê-lo em Royal Ascot, Newmarket ou mesmo Longchamp. Assim sendo, o que é bom para eles, na maioria das vezes será ótimo para nós.
A verdade nua e crua, é que a gente tem que sonhar com o King George - e falo com conhecimento de causa, pois, eu lá já estive sem pagar mico e creio que outros agentes ainda não - para com um pouquinho de sorte ganhar o Brasil ou um OSAF, onde também já estive, em mais de uma oportunidade. E com um pouco de mais sorte, numa Dubai Cup e num Santa Anita handicap, com elementos de origem brasileira. E já que estamos falando disto, uma pergunta, que não pode calar, mas que precisa antes de uma explicação. Tive a oportunidade de selecionar e adquirir ao único cavalo brasileiro que veio a ganhar uma Dubai Cup. Sorte? Talvez. Mas este era o objetivo assinalado desde o inicio pelo investidor que me contratara. A pergunta é simples. No que, você proprietário mais confiaria, no pedigree de Gloria de Campeão?
1. por ser filho de Impression ?
2. por ser neto materno de Clackson ?
3. por trazer consigo um imbreed em Good Manners e uma duplicação em La Farnesina?
4. por pertencer a consagrada linha U do El Turf-Abolengo?
5. nenhuma das respostas acima?
Eu como selecionador, garanto que ainda tenho minhas dúvidas. O que sei é que a conjunção dos itens 2,3 e 4, mal não iria fazer. Como não só não o fez, como para a sorte do Estrela Energia, funcionou. Logo, eu tenho plena consciência quão difícil é se acreditar com plena exatidão, o que realmente funciona em um pedigree de um grande ganhador.
Agora imaginem para aqueles capazes de estudar 5000 pedigrees e nada encontram? Um pattern sequer. Por isto, o melhor sempre foi e sempre será, juntar-se "coincidências", atribuindo assim o maior número de qualidades genéticas dentro de um pedigree e se possível duplicá-las, na hora de um cruzamento, para aumentar suas chances de sucesso. Afinal hoje, em todo e qualquer continente, mais de 84% dos vencedores de grupo, tem pelo menos uma duplicação em seus pedigrees.
No Brasil, acredito que eu, que estas duplicações tenham de ser mais próximas, pela pouca confiança depositada nos nossos mensageiros. Pelo menos é assim que a Austrália contornou o problema, e vem tendo percentualmente os seus melhores resultados, da mesma forma como a India o está fazendo também, por ter um problema ainda maior que o da criação brasileira, em termos de mensageiros. No Japão a coisa avoluma-se e na Inglaterra é o must do momento. E você não será obrigado a examinar 5,000 pedigrees. Pegue os pedigrees dos vencedores de 1123 provas consideradas sempre como especiais e hoje rotuladas como de grupo 1, na milha e meia de cada temporada europeia, de 1945 a 2023, e você terá a sua resposta.
Qual é a conclusão que se chega? O negócio é examinar os pedigrees e ter a capacidade de entender o que ele nos falam. Eles nada mais são que um mapa que poderás o levar ao tesouro. O que não se pode, é simplesmente combater qualquer que seja a teoria, pelo simples fato de querer justificar, sua incapacidade de reconhece-la, entende-la ou simplesmente utiliza-la. Como a grande maioria dos leitores das alma de um cavalo, bem como de 5,000 pedigrees dos mesmos, fazem por ai, constantemente.
Um bom domingo para todos.