Não há situação mais grotesca do que ver uma nordestino das Alagoas, em Mt. Sterling, tendo que pela primeira vez lidar, com uma temperatura 20º abaixo de zero. Aliás brasileiro algum lida bem com o frio.
Nós somos capazes de aguentar tudo, fome, miséria, PT e todas as demais maldições terráqueas e arrumar um jeito de conviver com as mesmas. Mas frio como o de Mt. Sterling, posso dizer por experiência própria, que ele nunca se acostuma.
É brutal e quando bate o vento e subitamente a sensação térmica passa a girar no entorno dos 30º negativos, a coisa degringola de vez e você se arrepende de estar vivo. Você aceita até dividir um cobertor com a Maria do Rosário...
Pois bem, eu já tinha quatro invernos na cabeça e eis que me pinta em Kentucky, o Rui Barbosa da Silva, que nada tinha a ver com o brilhante politico da história brasileira, e sim um alagoano retado, e que tinha como grande sonho conhecer as terras do Tio Sam, só que esqueceu-se de tomar c conhecimento que nestas terras existiam quatro estações e nos invernos as regiões mais ao norte, sofriam com as temperaturas baixas.
Mt. Sterling, que fica 45 minutos ao norte de Lexington, é uma região montanhosa, cujas temperaturas variam cerca de 15º abaixo das de Lexington, no inverno. No descampado o vento corta ! E eu que havia conhecido o Rui Barbosa das Alagoas, na Gávea, anos antes, previ o tamanho da cagada. Quando recebi a comunicação que ele estava voltando com dois reprodutores sediados em Lexington e que pedia hospedagem na fazenda que me abrigava, prontamente alertei-o do frio que estava fazendo e das roupas qu deveria usar. Bermudas, camiseta e havaianas, - a parte principal do guarda-roupa do alagoano - zero chance. E tive como resposta que tinha arrumado com um primo que morava no hipódromo de Cristal, uma japona. Imaginei imediatamente o que deveria ser a japona...
Pois bem, fui recebe-lo na Spendthrift, tendo o cuidado de levar um casaco reforçado, chapéu, cachecol, luvas e botas e quando a porta de trás do caminhão foi aberta, vi que estava salvando a vida de um compatriota. A japona dele de flanela, o boné era do Vasco da Gama e nas mãos ele estava usando ataduras dos cavalos.
Bom, para tornar uma história longa em algo curto, ele passou os três dias enfurnado no trailer em que eu vivia, sem chegar sequer perto da janela e amava quatro banhos por dia, com a água borbulhando. Acabou com meu boiler... . E eu lhe adquiri uma passagem de avião a Miami, já que voltar de caminhão, como havia sido planejado, seria a sua morte.Dois anos depis, num calor de 40 graus na Gávea, reencontro com ele, desfilando com o casaco e o cachecol que lhe dera em Kentucky e descobri que andava bravateando o que conheceram nas terras doTio Sam.
Porque me lembrei disto ? Porque ontem, acordei cedo e sem consultar a temperatura, desci a piscina para pegar meu sol aa manha. Fazia pouco mais de 5º e eu descera com bermudas, camiseta, sandálias e um boné do Flamengo...Imediatamente me lembrei do Rui...
