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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

PAPO DE BOTEQUIM: MEMÓRIA AFETIVA

Rose of England

Todos nós, mesmo os mais insensíveis seres humanos, são tomados por algo que chamo de memorai afetica. Um cheiro, uma visão, uma lembrança, uma música: o doce chamado de sonho me lembra Teresópolis, o queijo catupiry com a goiabada cascão minha juventude, Ursula Andrews o inicio de minha puberdade , o Flamengo as maiores sensações de guri. E a primeira ida a Gávea, com um novo horizonte que se descortinava em meu mundo.

Pois bem, estamos vivendo uma semana atípica. E não é pelo Flamengo estar sem disputar uma Libertadores há 38 anos que isto se sucede. É pela nação de torcedores que ele representa e pelo futebol de primeiríssimo nível que vem apresentando. Isto se chama paixão. Algo ardente que vibra dentro de você e reverbera em todas as suas entranhas. Esta mesma sensação que perdemos por nossas corridas de cavalos.

Eu já vivi, tempos atras semanas como estas, em Agosto, quando os Grande Prêmios Brasil eram disputados por elementos vindos de outros países. Os argentinos, principalmente, não vinham para apenas participar. Eles vinham para ganhar. E invariavelmente o faziam, E me deixaram inolvidáveis lembranças.

Em 1973, com a distância já reduzida, para a que se disputa atualmente, lembro que fiquei impressionadíssimo com uma égua argentina chamada Fizz. Uma descendente de Rose of England, imbreed em Blandford.

Sua mãe fora objeto de estudos meus com o senhor Atualpa Soares, como talvez uma das mais importantes importações levadas a efeito em nosso continente. Tratava-se de uma Worden, em mãe Colombo, bisneta da já citada Rose of England, com imbreeds em Solario, Teddy e Phalaris. Não estou me expressando em hieróglifos. Estes eram os grandes nomes da época e o haras Argentino não poupou esforços para trazer esta joia para nosso convívio.

E o resultado de tal empreitada?

Um rosário de elementos distoantes do que havia por aqui, capaz de encher duas ou três paginas de um catalogo de vendas. 

Mas voltando a Fizz ela, se me recordo, ganhou este Grande Prêmio B brasil, de ponta a ponta, como a uma verdadeira galopadora como tantos outros filhos e descendentes mais próximos de Fallow. Não tive o privilégio de acompanhar anos antes as vitorias argentinas de Gualicho, El Aragones, Mangangá, Tatán, Don varela, Espiche nos anos 50 e Arturo A em 1961, quando a prova era ainda disputada em 3,000m. Foi me passado pelo seu Atualpa como verdadeiros vareios. Ai tivemos nossa era áurea e momentânea de Narvik, Farwell e creio que a partir de então melhoramos a qualidade de nosso PSI. E juntando-se isto ao desestimulo financeiro dado a nossa prova máxima, os argentinos começaram a vir em menor escala e e numa menos qualidade.

Logo, quando digo que já tivemos um turfe de alto nivel, não estou agindo como aquele saudosista que acha ate que Zizinho foi melhor que Pelé. Para muitos, inclusive para o próprio Pele, é um assunto controverso. Falo de uma era que me fez amar esta atividade e até acreditar que ela daria certo. 

Hoje vejo hipódromos minguarem, proprietários diminuirem, nossa criação ser dizimada, nossa prova maior ser disputada por ninguém e alguns ainda se dão no direito de justificar suas gestões por terem dinheiro em caixa. Como se isto fosse um must.

Nosso Belo Acteon, ganhou também nossa prova mais importante de ponta a ponta. Isto me fez lembrar a carreira de Fizz. Seria muito atrevimento de minha parte achar que a recuperação de um Grande Premio Brasil, tendo como início a volta a ser l Grande Prêmio Brasil no mínimo disputado nos moldes de um Pellegrini? Seria a chance maior de ressurgimos do que um dia fomos?



Não sei, O que sei é que Fizz é peça importante deste meu engajamento definitivo como profissional de turfe. Como sua bisavó Rose of England, se tornou em meus estudos, quando li sobre sua vitoria no Oaks de 1930, acima retratada, pilotada que foi pelo legendário Gordon Richards.

Como aquele goleiro velho que sabe exatamente onde a bola vai, comanda seu corpo, mas este já não mais obedece, sinto-me em relação ao que vejo atualmente em nosso turfe. Falta no mínimo ousadia. Discernimento de objetivos a serem alcançados. E triste, melancólico, porém, o que tenho a dizer sem querer ferir sentimentos outros.