Nem todo cavalo de corrida é um Ferrari.
Deve-se estar bastante atento a qualquer tipo de mudança, no mercado em que você atue. No turfe o fechamento de três hipódromos na California levadas a efeito nestas últimas décadas é um sinal evidente de queda no mercado das corridas de cavalos naquele estado. Já o fechamento recente de Aqueduct no estado de New York, um fortalecimento de seu hipódromo principal, Belmont Park. Fato este facilmente entendido, com a aceitabilidade do publico apostador quando da abertura do último nesta semana. Muitas vezes, o menos é mais.
Quando ainda muito jovem, nunca imaginei poder estar falando com alguém, que não estivesse em meu campo visual, a não ser por aquela peça de porcelana - geralmente negra - presa a parede, a quem fui introduzido como sendo telefone. Imaginem minha surpresa, ao tomar posse de meu primeiro celular ! Um tijolo pesado, cuja única finalidade era fazer e receber mensagens
O mesmo aconteceu na evolução da régua de calculo, a máquina de calcular e esta ao computador. Logo meus queridos jovens, não se assustem com o nível de resistência, mantido pelos mais idosos como eu, a certas mudanças no mercado. Só que há nelas, também algo que prenuncio como importante neste processo de absorção: prudência.
Prudência quando derivada de conhecimento e experiência, passa a ter um maior valor, em seu crivo critico e sua tendência natural em pesar com mais paciência, os prós e os contras, que aquela mudança poderá causar. E por isto, procuro dar minha opinião depois de deglutir sem pressa, o âmago de cada questão. E posso lhes adiantar que poucas vezes tive dor de barriga...
Imaginem, o que foi para mim, ver o Derby e consequentemente a distância por ele exigida, os 2,400 metros, achocalhada em detrimento de provas da milha à milha e um quarto, como um melhor melhoramento em um aproveitamento reprodutivo. Como deve ter sido um choque para as gerações anteriores a minha, a abolição da Ascot Gold Cup, disputada em 4,000 metros aos quatro anos, como símbolo de um selo de qualidade, para efeitos reprodutivos, pelos os de minha idade. Logo, como simplificariam os norte-americanos, things change.
Vocês acham que foi simples para os europeus aceitar o dirt em pistas norte-americanas, quase em sua totalidade flats e ovais ? Era para muitos a irrealidade, até o aparecimento de Habitat, Sir Ivor e Nijinsky.
Hoje o sprinter tem finalmente seu valor reprodutivo reconhecido e explorado por todo e qualquer criador lúcido. E o stayer é tremendamente relegado ao ostracismo para aqueles que cria e participam do steeplechase. Dai a comoção quase que nacional, com vitória no flat do primeiro filho de Stradivarius.
Stradivarius, não era apenas um stayer. Alguns assim o viam, por ter ganho três Ascot Gold Cups, mas que aos seis anos foi capaz de ser segundo no Prix Foy (G1) e terceiro na Coronation Cup (G1), ambas disputadas em 2,4000m metros. Vocês já se deram ao trabalho de pensar o que é pegar um cavalo treinado, a vida toda, para o alto fundo e de repente tentar correr o Arco aos seis anos de idade ?
Os grandes protetorados do mundo do turfe, que não tem como intuito vender, deveriam separar em seus primeiros três anos de um stayer na reprodução, éguas para direcionar a estes grandes cavalos que provaram ter este tipo de estamina, como forma de preservar esta classe de animal. Pode parecer poético, mas é na verdade prático. Vid no Brasil, Henri le Bafré, Waldmister e Sulamani. O tempo se encarregará de provar esta tese, pois nem todo cavalo de corrida é uma Ferrari, mas quando dirigida por quem a conhece bem, pode se transformar num aprazível Mercedes...