
RG – Gostei do tom que você respondeu e acho que deveríamos não simplificar este ponto e sim nos aprofundarmos ainda mais no mesmo. Você afirmou algo que tenho plena certeza. Os proprietários de hoje sabem menos e por isto muitos treinadores fazem o que fazem. Vi um cavalo treinado por Kenny McPeek sair do Travers stakes e correr semana passada aqui e chegar a sete corpos na quinta colocação em um Optional claiming. Das duas uma. Ou ele nunca pertenceu ao Travers stakes, ou um Optional claiming em Keeneland se tornou mais forte que o Derby de verão. Não me pareceu a primeira vista um traçado de campanha racional.
JV – “Sei exatamente a que cavalo você está se referindo. Não me pareceu uma atitude racional, mas fica dificil se dizer qual era na realidade a estratégia de treinamento sem estar dentro do problema. Infelizmente tenho que concordar que estas coisas acontecem com certa constância. E estão se proliferando. A televisão trouxe a chance de você aparecer sem precisar ganhar. Basta estar inscrito. O treinador é entrevistado e aproveita a oportunidade para promover-se. E muitos treinadores não desejam perder esta oportunidade. É uma projeção sem custo para ele. Apenas para o dono do cavalo.".
RG - Poderia igualmente ser, a falta conhecimento por parte dos proprietários em cobrar estas descrepâncias e excessos de seus treinadores?
JV – “Em parte sim. Mas existe, paralelamente a isto, um desconhecimento e excesso de cavalos. Antigamente era difícil se assumir uma cocheira com menos de 40 anos de idade. Você tinha que penar por 20 anos entre os mais conceituados treinadores para adquirir não só conhecimento, como respeito. Comia-se o pão que o diabo amassara. Hoje, vejo treinadores, que iniciam sem estágio algum, encherem suas cocheiras e se mantém pela forma com quem conseguem treinar seus proprietários. Jovens perus”.
RG – Esta sua conotação confesso que me fascina. Principalmente vinda de alguém que nasceu, viveu e exerce sua profissão em Lexington. Gostaria de lhe perguntar algo, que pouco se comenta por aqui, pois, de alguma forma pode afetar o comércio local. Anos atrás cavalos como Buckpasser, Dr. Fager, Damascus e Round Table corriam inúmeras carreiras aos dois anos e voltavam aos três, quatro e cinco anos demonstrando superioridade. Os Seattle Slews, os Affirmeds e os Spectacular Bids corriam aos quatro anos, expondo-se. O que vemos hoje são cavalos compartimentados. Aqueles que correm a Breeders Cup Juvenile. Outro grupo que disputa a tríplice coroa. Um terceiro que aparece no Travers stakes e poucos são os que sobrevivem para a Breeders Cup Classic. Quando alguém sobressai é imediatamente sindicalizado e retirado sem um confronto direto contra os mais novos. E muitas vezes nem contra os mais velhos. Por que isto está acontecendo? Como poderemos fazer comparações?
JV – “Não existem mais comparações, pois, para muitos elas não são nem necessárias. Como igualmente não existem mais Buckpassers, Damascus, Dr. Fagers ou Round Tables por uma série de razões que discutimos em perguntas anteriores. A verdade é que estamos produzindo cada vez mais cavalos menos resistentes. Existem treinadores de 300 cavalos que assim tem que se preocupar mais com percentuais do que com os cavalos propriamente dito. O cavalo médio está sendo tremendamente afetado".
RG – Chances de melhora?
JV – “Confesso que não as vejo a curto prazo”.
RG – Uma última pergunta John. Em uma oportunidade entrevistei a Lester Piggott e lhe perguntei qual era a importância do treinador no contexto geral. E ele me respondeu sem precisar um segundo para pensar, que o trabalho dele como jóquei era de estar no local certo, na hora certa de apertar o gatilho. Dali para frente é que se conhecia o trabalho de cada treinador. O que você acha desta opinião?
JV – “Perfeita. Muito bem definido. O condicionamento de um cavalo, está
consubstanciado na forma de fazê-lo agüentar o esforço e na hora vital, ter lhe dado condições de suplantar-se acelerando ainda mais. Ganhar é apenas a conseqüência. Sempre existirão cavalos de maior habilidade ou melhor coração. O que não pode existir são cavalos melhores preparados. Pois, ai residirá sua culpa. Resumindo, o problema é estar ciente que seu cavalo rendeu aquilo que você esperava dele. Isto o dignifica, pois, prova que você fez o seu trabalho. Fui vencido inúmeras vezes e seria mais se ainda estivesse em atividade. Mas sempre vi a coisa como uma estância passageira. Como teria que fazer para suplantar da próxima vez aquele adversário? Este era o desafio. Contra Affirmed não funcionou. Mas com outros sim. No geral saí no lucro”.
Foi deveras gratificante ter tido a oportunidade de entrevistar John Veitch, Seus pontos foram claramente expostos, sua coragem de dizer o que tem que ser dito colocada a toda prova e sua indução ao Hall of Fame, provada que não foi um mero detalhe da sorte. Ele a mereceu.
Renato Gameiro - Keeneland Outubro de 2007