
RG - Entendo que sempre que exista uma rivalidade como esta, a mídia pressiona e tenta arrancar dos treinadores provocações. Como foi seu relacionamento fora da pista com Lázaro Barrera?
JV - “Sempre o melhor possível. Diria que mais que cordial. Confesso que saí frustrado, mas representava a Calumet Farm e não poderia agir de outra forma”.
RG - Gostaria de sanar uma dúvida que sempre tive em relação a Alydar. Para você qual foi a sua melhor carreira? O Flórida Derby, o Belmont Stakes ou o Travers Stakes?
JV - “Penso que foi na realidade uma quarta carreira; o Whitney (handicap) em que o preparei para o Travers (stakes). Ele bateu a J. O. Tobin por uma avenida. Ganhamos a seguir o Travers (stakes), por desclassificação, mas se Pincay (Lafitte) não tivesse feito o que fez conosco na reta oposta, teríamos aquele dia chegado certamente a frente de Affirmed”.
RG - De que grandes treinadores você acha que possa ter tirado alguma inspiração?
JV - “Creio que meu pai. Ele foi a peça chave em minha formação profissional. Trabalhei com Elliott Burch para o senhor Paul Mellon, mas creio que me fiz como treinador criando os meus próprios conceitos. Perguntei muito. Nunca tive vergonha de procurar um treinador mais
experiente e pedir dele uma opinião para um problema que me afligia. Errei como todos os treinadores, mas procurei não repetir os mesmos erros. Creio que meu maior valor foi em querer sempre melhorar. Mas sempre observei treinadores como Woody Stevens e John Gaver e outros cujos nomes me faltam agora”.
RG - Você teve o privilégio como treinador de conviver na época áurea do turfe norte-americano. O tempo de Seattle Slew, Affirmed, Alydar e Spectacular Bid. Qual deles em sua opinião era o melhor?
JV - “Creio que não haveria muita diferença entre Seattle Slew e Affirmed e penso que Alydar era um degrau acima de Spectacular Bid. Todos eram elementos diferenciados".
RG - Creio que Seattle Slew, Affirmed, Alydar e Spectacular Bid e mais Secretariat dominaram os anos 70 e devem estar entre os melhores cavalos já produzidos nos Estados Unidos. Observo atualmente de forma continua, a mídia tentar idolatrar cavalos comparando-os a estes monstros sagrados. Em sua opinião, qual o cavalo moderno que mais se aproximou destes cinco?
JV – “Sinceramente não me recordo de nenhum. Estamos decaindo como criadores, e este fato é fácil de ser entendido. Nos anos 70, tínhamos criadores que tinham plena consciência que perderiam dinheiro. Isto não os importava. Queriam ganhar e produzir elementos que se orgulhassem. Não vendiam seus animais. Os corriam. Hoje o fator comercial é importante.
Hoje vende-se. O lucro maior está na venda. O enfoque no haras passa a ser outro. Existe um outro dado importante. Avançamos muito nas técnicas de medicação. Hoje a verdadeira sanidade de um cavalo, fica no sigilo dos barns. Sanidade é a peça básica da reprodução. Produzimos atletas e atletas devem por definição devem ser sãos. Não apenas velozes”.
RG - Acompanhei sua trajetória, pois o final dos anos 70 foram o inicio de meu aprendizado no turfe norte-americano. E noto que você é o treinador que detêm até aqui o maior número de Flórida Derbies; três sendo um deles com o melhor segundo tempo da história para esta prova; 1’47” com Alydar. Da mesma forma ontem corremos aqui em Keeneland uma prova para as três anos na grama, o Queen Elizabeth Challenge Stakes, que você também detêm o recorde entre os treinadores com três vitórias. Lembro-me que você treinou champions fillies de 2 e 3 anos. Ganhou a Breeders Cup Classic no dirt com Proud Trouth e conseguiu um champion grass horse com Sunshine Forever. Teria ganho a tríplice coroa se Alydar nascesse dois anos antes ou depois. Vejo que precocidade, distância, sexo e tipo de pista parecem não fazer
nenhum diferença para você. Como conseguiu isto? Individualizando sua forma de treinar?
E completando minha pergunta, por que não vemos na atualidade tantos treinadores com estas
características? Pelo que entendi por sua opinião, não existem mais tantos proprietários que saibam discutir com eles em igualdade de condições?
JV – “Você realmente gosta de ir ao ponto. Então vamos a ele, doa a quem doer. Eu recebia os meus potros em Dezembro os levava a Flórida. Todos iniciavam seu treinamento da mesma forma. Após algum tempo em certo estágio as diferenças começavam a se mostrar flagrantes. E
como você notava isto? Pela única forma de fazê-lo. Observava-se quem comia menos, ou com menos disposição. Quem bebia pouca água. Quem o fazia em excesso. Como eles descansavam, se mostravam-se dispostos ou não. Se a reposição de energia era lenta ou imediata. Enfim todo o detalhe que pudesse contribuir para identificar as necessidades de cada um. Estas eram informações chaves. E para tal você tinha que ter uma equipe de pessoas do mais alto nível em
torno de si. Não só em termos de empregados, como também os gerentes dos Haras que tinham informações sobre as mães e avós do potros. Sou daqueles que penso ser a mãe ponto fundamental. Muitas das características de aceitação de treinamento vem delas. Vem na realidade das familias. Estas informações de cocheira eram de suma importância. Sunshine Forever é um exemplo disto. Se houvessem lhe exigido no início, não se transformaria no cavalo que veio a ser.
Quanto a segunda pergunta, creio que exija uma resposta maior. Todavia, vou tentar simplificá-la. Eu nunca tive mais do que 28 cavalos em meu barn. Terminava a temporada com 18 ou 19, pois, uns mancavam, outros eram levados para o haras para aproveitamento reprodutivo e alguns até vendidos. Pois bem, com este número dá para você controlar e estar por
dentro de toda informação inerente a cada cavalo. Esta é a forma de individualizá-lo. O cavalo lhe mostra o que quer e você, simplesmente, tenta satisfazê-lo. Todo treinador está sujeito a erros. Eu mesmo os cometi. Mas existem três fundamentais que você deve se policiar e evitar sempre que possível.
Primeiro, a cocheira não parece ser mais uma cocheira e sim uma das sedes de uma indústria. Treinadores treinam hoje muitos cavalos.
Segundo, somando-se a este agravante, os treinadores atuais perdem mais tempo fora da cocheira que dentro dela.
E terceiro falta conhecimento e cobrança dos atuais proprietários.
Existe também o dono de cavalo que sonha alto e pede ao treinador para inscrevê-lo por vaidade ou mesmo por desconhecimento. Se eu inscrevesse um cavalo da Darby Dan numa carreira em
que ele não fosse competitivo, teria que ter uma muito boa explicação para dar ao senhor Galbreath (John). Treinei para as famílias Whitney, Galbreath, Genter, Wildener, enfim gente que se conhecia, que freqüentaram os mesmos colégios e que eram membros dos mesmos clubes. Logo, tinham muito em comum e na maioria vindos da terceira geração de horsemen. O prazer deles era suplantar o primo, o amigo, o colega do colégio ou o outro membro de seu clube e não mediam esforços para tal. Não se ridicularizariam em aventuras sem sentido. Não precisavam do dinheiro nem da projeção. E o mais importante de tudo; sabiam como cobrar e
não tinham papas na língua.
Era uma outra época, um outro turfe”.
CONTINUA