
Quando se estuda pedigree, você não pode estar apenas preocupado com os cavalos. Você deve estar igualmente tentando entrar na mente daqueles que os criam.
Uma pergunta deve ser constante no fundo de sua mente. Porque o determinado criador optou por esta ou aquela solução? O que o levou a tomar aquela decisão? Qual foram os seus resultados? Que metas atingiu a curto, médio ou a longo prazo? Isto deve ser um exercício constante.
Outrossim, para tal você deve primeiro traçar um perfil do criador e tentar decifrar seus objetivos. Não podemos nos dar ao luxo de mantermo-nos em nossa casca cultural. No turfe brasileiro existe uma tendência de se deixar estar para ver como é que fica. Compra-se um égua clássica, se cobre com o cavalo da moda e esperasse pelo melhor. E se o melhor não vier. Tenta-se outra vez. Um dia a coisa acontece, imediatamente é esquecido todo o dinheiro gasto para se chegar onde se chegou e o pior: não se sabe porque a coisa aconteceu. Repete-se o mesmo cruzamento a espera que o milagre se repita.
Os detratores do óbvio e seus acólitos, por não terem tempo ou por simplesmente não acreditar que a história se repete, preferem negar toda e qualquer teoria. No turfe é mais fácil se apontar erros do que detectar virtudes. Todos que assim pensam, contribuem para uma imobilidade, sufocante, necrosada, centípede.
Penso de forma distinta. Daqui para frente publicarei alguns perfis de criadores que penso que de alguma forma contribuíram para o desenvolvimento desta raça.
HUGH LUPUS GROSVENOR (1825 - 1899)
Em nenhuma literatura pode-se encontrar opiniões agradáveis a respeito do Primeiro Duke of Westminster. O melhor que podia-se dizer, era que ele se tratava segundo o historiador Michael Seth-Smith “um homem de boa aparência, alto, magro, olhos castanhos escuros e feições bem delineadas”.
Segundo tudo o que foi escrito sobre o primeiro Duke of Westminster por historiadores da época, ele não parecia ser uma pessoa cativante e muito menos interessante. Detestava jogar, beber e perder tempo com conversações fúteis. Por sua vez, dono de uma imensa fortuna, só compáravel a da Rainha e de poucos Maharajas espalhados pelo mundo, ele doava tudo o que seus cavalos ganhavam para obras de caridade. Mas ninguém em sã consciência pode desrespeitar o sucesso que obteve durante sua passagem pelo turfe enquanto se manteve vivo e mesmo depois de sua morte, com a excelente campanha levada a efeito por Sceptre. Segundo ainda o jornalista Michael Seth-Smith, “um fino conhecedor de cavalos que pouco poderia não saber a respeito da criação e do desempenho de thorougbreds”.
Hugh Lupus Grosvenor nasceu no dia 13 de Outubro de 1825. Ele foi o quarto filho do Visconde Belgrave e Lady Elizabeth Levenson-Gower a mais jovem filha do Marquês de Strafford futuro Duke of Sutherland. Casado desde cedo com sua prima Lady Constance Lavenson-Gower, Hugh Lupus Grosvenor faz parte do seleto rol de homens que vieram a criar e ter propriedade de mais do que um tríplice coroado. Ele foi o primeiro a conseguir com Ormonde e seu neto Flying Fox e o único a fazê-lo até aqui na Inglaterra. Os outros dois conseguiram este feito somente nos Eua; William Woodward do Belair Stud com Gallant Fox e seu filho Omaha e Warren Wright da poderosa Calumet Farm com Whirlaway e Citation.
Durante a sua trajetória ele veio a criar a apenas cinco individuais ganhadores de clássicos britânicos e como proprietário a mais um. Isto a primeira vista em comparação ao Duke of Falmouth, ao Duke of Portland, Aga Khan e Lord Derby pode parecer irrelevante. Porém, quando você se dá conta que estes seis elementos vieram a ganhar nada menos que 15 destes clássicos, fica mais do que latente a qualidade dos indivíduos que vieram a passar por suas mãos num curto período de não mais do que 10 anos.
Ele era um home breeder que acreditava no cruzamento do grande corredor com a égua de grande pedigree, que não necessariamente tivesse se provado nas pistas. Uma politica dificil de ser levada adiante nos dias de hoje, onde a parte comercial se sobrepõe a vontade de se criar um bom cavalo para a pista. A visão da maioria dos criadores, é a comercial. O cavalo de Tattersall.
Numa rápida análise sobre os seus cinco ganhadores de clássicos britânicos produzidos veremos que, as mães de Orme e Bend Or nunca vieram a correr e enquanto a primeira era uma irmã inteira de St. Simon, a segunda era uma materna da grande chefe de raça Paradigm. A mãe de Sceptre (foto) nunca ganhou, mas em contrapartida era uma irmã inteira de Ormonde. A mãe de Flying Fox era uma ganhadora de apenas duas carreiras aos dois anos, para um total de 12 saídas as pistas. E somente a mãe de Ormonde mostrou qualidades na pista, vencendo 22 carreiras entre as quais dois importantes Handicaps. Mas em contrapartida era roncadora.
Assim o método encontrado pelo mesmo para atingir a supremacia total entre os seus colegas da época, e que anos depois foi igualmente seguido por Federico Tesio com resultados a meu ver ainda maiores, era bastante simples. Para ele, como para Tesio, o importante era selecionar a égua que por pedigree, características e físico fosse um perfeito cruzamento para seus garanhões. Ele contrabalançava, performance com pedigree. Ele acreditava que a energia vinha do pais e a hereditariedade das mães. E certo ou não, seus resultados responderam por suas iniciativas.
O Eaton Hall foi fundado por sua família, mas herdado em precárias condições. A negligência com que o mesmo havia sido tratado nos últimos 25 anos efetivou o aparecimento de “strangles” em 1861. Entre os seis yearlings fortemente afetados havia um curiosamente chamado Macaroni. Os seis vieram a ser vendidos pela total quantia de 700 Guineas para R. C. Naylor que havia recentemente se estabelecido no vizinho Hooton Park e quis o destino que Macaroni viesse a ganhar o Derby de 1863.
Hugh Lupus Grosvenor era um muito bem conceituado horseman, mas que no inicio não tinha pelo turfe nenhuma estima. O Eaton Hall de nenhuma maneira trazia mais o nome e os resultados da era Touchstone e seus três filhos ganhadores do Derby. Mas com a morte de seu pai em 1869, ele resolveu reativar o Eaton Hall e 28,000 Guineos foram gastos para tal. O Eaton Hall não estava localizado em terras consideradas pelos experts da época como ideais para a criação de cavalos de corrida, aquelas cujo solo estava sedimentado sobre o limestone. O Duke of Westminster havia selecionado uma faixa sobre alluvial soil adjacente a um rio, rico em humus e segundo seu treinador por 18 anos John Porter, seus produtos, excetuando-se as dores de canela crônicas de Bend Or, nunca apresentaram problemas ósseos que causassem maior consternação.
Em 1875, o Duke comissionou seu treinador Robert Peck para a aquisição de alguns animais e as cores “yellow and blue cap” voltaram a ser vitoriosas com a potranca tordilha Sly no Hopeful Plate de Doncaster e Dalham no City and Suburban Hcp., e posteriormente a Epson Cup, ambas em Epson Downs.
Mas acredito eu, que sua primeira investida de real importância no turfe para esta era, foi levada a efeito quando da compra por 15,000 Guineos do Derby winner Donovan, também por intermédio de Robert Peck, que o havia adquirido particularmente por $10,000 Guineas. Com ou sem overprice, em sua primeira fornada Donovan veio a produzir a Bend Or e a partir dai o futuro turfístico de Hugh Lupus Grosvenor no turfe se tornou garantido.
Hugh Lupus Grosvenor feito Duke de Westminster pela Rainha Victoria em 27 de Fevereiro de 1874 entre 1880 e 1899 viu as suas cores ganhar nada menos que 11 clássicos. Para este período ele veio a se utilizar inicialmente dos serviços de Robert Peck e posteriormente John Porter e em 1884 ele finalmente veio a vender Donovan, um cavalo por quem nunca teve grande estima.
Em 1899 aos 74 anos de idade o Duke atingiu imensa popularidade com a conquista de sua segunda tríplice coroa. Neste ano ele compareceu ao casamento de sua favorita neta, caçou e pescou com amigos e em Novembro ao comparecer ao funeral de T. H. Ismay, o Charmain da White Star Line (vide Titanic), pegou um resfriado, que virou em broquite aguda e que acabou por lhe tirar a vida em 22 de Dezembro. Seus cavalos em treinamento vieram a ser vendidos em Kingsclere, o Stud de John Porter, em Março de 1890 e entre eles estava o recém tríplice-coroado Flying Fox. Recordista de somas ganhas na pista 70,440 Guineos, este neto do também tríplice coroado Ormonde foi adquirido pelo criador francês Edmond Blanc e acabou por se constituir numa das mais inesquecíveis perdas em termos reprodutivos para a criação britânica. Blanc pagou a recordista soma de 37,500 Guineos e fez de Flying Fox um dos mais importantes chefes de raça do Continente Europeu, principalmente por intermédio de seu neto Teddy. Em Julho o patrimônio equino do primeiro Duke de Westminster foi definitivamente extinguido em Newmarket e entre eles uma potranca chamada Sceptre que estabeleceu um novo recorde mundial para yearlings, adquirida que foi pelo excêntrico Robert Slavier.
Em vida ele não cometeu muitos erros se o assunto era cavalos de corrida, porém, um que acredito deve ter se arrependido imensamente foi o relativo ao cavalo Paradox. Paradox um filho de Sterling e Casuistry foi criado nas mesmas terras responsáveis pelo grande stayer Isonomy, o Yardley Stud da família Graham e adquirido por 700 Guineas por John Porter e o Captain Bowling. Com quartelas longas e curvilhões de pouca qualidade ele se mostrou um elemento difícil de se treinar, todavia, no Outono, mais precisamente no inicio de Outubro ele treinou de forma tão convincente que o Duke of Westminster fez uma proposta de 6,000 Guineos para comprá-lo. Aceita a oferta, Paradox estreou nos 1,200m do Middle Park Stakes, sendo terceiro após uma péssima largada que praticamente lhe alijou da contenda. Porter ficou impressionado com a apresentação de seu pupilo, mas não o Duke.
Em cavalos de corrida o pior que há, são geralmente os amigos de seus donos. Eles não gastam nada, mas enchem o proprietário de idéias e opiniões abalisadas. Assim sendo, não foram poucos aqueles que imediatamente fizeram crer ao Duke que ele havia sido passado para traz. Desta forma ele vendeu seu interesse em Paradox para Mr. Brodick Cloete por 5,000 Guineos e Paradox levado a seguir ao Dewhurst Stakes o venceu em canter por três corpos. Para tornar uma longa estória curta, Paradox direcionado a seguir direto ao Two Thousand Guineas, sem nenhuma corrida preparatória, venceu com Fred Archer no dorso. A seguir foi segundo por diferença mínima no Derby para Melton e por cinco corpos veio a bater ao ganhador do Derby francês Reluisant, no Grand Prix de Paris. Completou sua campanha de três anos com duas vitórias na milha do Sussex Stakes em Goodwood e no Free Handicap de Newmarket.
Aos quatro anos, já não mais aos cuidados de Porter, Paradox venceu o Champion Stakes e foi retirado para o Ecchinswell Stud de Newbury com uma cobertura avaliada em 30 Guineos.
A palavra “se” para mim foi extraída a muitos anos do dicionário turfístico, todavia, há de se imaginar que a morte de Hugh Lupus Grosvenor, determinou o término de uma era. Se ele continua vivo de posse de Flying Fox e tendo Sceptre treinada desde o inicio por John Porter, o que isto se constituíria em termos reprodutivos para as Ilhas Britânicas? Quantos clássicos a mais ele somaria para a sua criação? Que seria da linhagem Ormonde nos dias de hoje? Teria Sceptre conseguido o inusitado feito de ser o único elemento na face da terra a ter vindo a ganhar os cinco clássicos britânicos? Teria ele ganho a sua tão almejada Ascot Gold Cup?
Estas são perguntas que infelizmente nunca serão respondidas. Todavia, não existem dúvidas que quando da sua eleição para membro do Jockey Club em 1879 ao final do século, viveram-se 25 anos gloriosos para o Eaton Hall Stud. E creio que poucos foram os criadores que conseguiram em dez anos o que Hugh Lupus Grosvenor conseguiu no final do seculo XIX.
06 WINNERS OF 15 BRITISH CLASSICS
ONE THOUSAND GUINEAS - Farewell e Sceptre
TWO THOUSAND GUINEAS - Peregrine, Shotover, Ormonde, Flying Fox e Sceptre
OAKS - Sceptre
DERBY - Bend Or, Ormonde, Flying Fox e Shotover
ST. LEGER - Ormonde, Flying Fox e Sceptre