CONTINUAÇÃO DE ONTEM
RG - Antes de entrar em outro assunto, uma pergunta que você tem o direito de não responder se assim o achar. Bid ganharia a tríplice coroa se você estivesse a bordo?
AC - Poderia ter corrido melhor aquele dia. Mas acredito que não. Não era a sua distância e muito menos o seu dia. Acredito mesmo que passou pelos problemas, que só após a carreira vieram a ser revelados.
RG - Aqui neste pais ganhar o Kentucky Derby passou a ser uma obcessão. Se você como profissional não o fizer, está off-broadway. Como é para um jóquey correr um Kentucky Derby? O que você lembra daquela que provávelmente seria uma de suas primeiras experiências nesta carreira?
Ele sorriu.
AC - Você conhece a história. Foi em 1968. Já faz mais de 40 anos... Eu montava um cavalo muito bom chamado Iron Ruler. Eu havia ganho o Flamingo e fui desclassificado. Mas a seguir fui segundo no Florida Derby, para Forward Pass. A seguir voltei a ser segundo no Wood Memorial para Dancer’s Image. E fui barrado. Chorei bastante, mas provavelmente o treinador estava certo. Eu ainda não estava pronto para a primeira liga. Todavia, estes dois cavalos que me bateram, fizeram primeiro e segundo no Derby. Logo, não era apenas eu o culpado. Dancer’s Image foi desclassificado a seguir pelo uso da então proibida buta. Que, por estas coisncidências da vida, acabou sendo legalizada no ano seguinte. Tinha uma desculpa melhor que a de Ronnie, para explicar meu fracasso, mas a verdade é que tanto eu , quanto ele, estávamos ainda verdes.
RG - Nunca posso imaginar que um dia você pudesse não pertencer a primeira liga, mas já que você tocou neste assunto, uma pergunta simples: o que é mais difícil, chegar a primeira liga ou se manter nela?
AC - Em meu tempo e nas condições que aqui cheguei, ambos. Mas acho que hoje é mais dificil ainda se manter na primeira liga. Da mesma forma que diria que hoje seja mais fácil se chegar nela . Muitas mais oportunidades e se você tiver talento, de alguma forma, este o levara a primeira liga. Uns de forma rápida, outros necessitarão de mais tempo. Em meu tempo era difícil, pois, quando você chegava a este pais sem um contrato, tinha que lutar muito para conseguir um lugar que lhe desse visibilidade. E havia o problema da comunicação. Hoje quase todos os treinadores modernos falam espanhol, ou pelo menos têm condições de se comunicar nesta língua. Muito simulcasting. Você sabe exatamente o que está acontecendo na outra costa.
RG - Você acha que cometeu erros?
AC - Muitos e de todos os tamanhos. Mas uma das qualidades que tenho é saber quando erro. Um de meus maiores defeitos, de vez em quando, repeti-los.
RG - E o que dizer dos aprendizes?
AC - Eu diria que quando eles perdem o direito aos 7 pounds de allowance, suas vidas se complicam, se eles não tiverem demonstrado até ali, muita qualidade técnica. Mas hoje é mais fácil um aprendiz se manter como jóquei do que no meu tempo. Eles possuem mais visibilidade. Os bons terão suas chances. Os maus, deverão tentar outros caminhos.
RG - Muita gente que vai ler esta entrevista no Brasil, na verdade não o viu montar. Creio que você parou em 91. Como você se descreveria como jóquei?
AC - Na verdade foi em 92. Eu não posso julgar-me. Posso apenas dizer o que diziam de mim. Que quando o cavalo tinha pernas, eu o fazia usá-las em seu limite. E você que me viu montar, qual é a sua opinião?
RG - Que você fazia os seus cavalos correrem mais dos que as pernas.
Ele soltou outra gargalhada.
RG - Outra coisa que me fez gostar de seu estilo é o fato que você parecia saber as qualidades e fraquezas de seus adversários. Estou correto? E se estiver, como você estudava seus adversários.
AC - Hoje não é dificil, pois existe abundantes informações. Eu meu tempo você tinha que ver com os seus próprios olhos, ou ouvir de quem confiava. O seu mundo era visual...
RG - E hoje virtual...
AC - ...exatamente, mas como estava em New York, tive a oportunidade de pelo menos ver, os que lá estavam. E eram indubitavelmente os melhores.
RG - Creio que foi em 1977, que as corridas a noite tiveram seu inicio por aqui nos estados Unidos. Você como jóquei como viu esta inovação?
AC - Com muito gosto. Primeiro que elas tiveram seu inicio perto de onde eu estava. Em Meadowlands. E eu que estava sempre tentando disputar as estatísticas, passei a ter mais oportunidade de fazê-lo, com mais oportunidades de correr. Mas nunca consegui, nestes 5 anos. Estives durantes estes em Meadowlands todas as noites, mas não foi o suficiente. Fui batido nestas temporadas por por Laffite, por Pat Day, por Chris McCarron, por Sandy Hawley e novamente por Laffite. Não sei como explicar. Ganhei três estatísticas, montando menos que nestes anos.
RG - Seria verdadeiro o fato que nas grandes carreiras você agia como um possuído, como parte da imprensa afirmava naquela época? E no dia a dia era um jóquei bom, mas normal?
AC - Tenho que confessar que o grande cavalo sempre me deixava ainda mais focalizado. Estudava melhor talvez os clássicos. Mas sempre, dei tudo de mim, quando em cima de um cavalo. Tanto no claiming como no kentucky Derby.
RG - Porto Rico sempre foi um grande celeiro de espetaculares jóqueis. A que você atribui isto?
AC - Nosso amor pelas corridas e a necessidade de vencer fora de nossas fronteiras. Vim com Laffite e Jorge Velasquez e creio que não deixamos o nome de nosso país mal.
RG - Angel, porque os cavalos hoje carregam menos peso que antes e os jóqueis da atualidade são mais pesados e consequentemente tem que sofrer para fazer os pesos estipulados?
AC - Este é um ponto que não entendo. Aliás, nunca consegui entender. Pela manhã os cavalos carregam até mais peso do que levam em corrida. Quando eu aqui cheguei, os dois anos podiam carregar 122 Pounds, e aos 3 e quatro 126 sem esforço algum. E não deixavam de ser grandes cavalos. Entre estes vi alguns carregando 133, 140 pounds. Isto eu também considero excessivo. Mas, como exigier hoje um jockey fazer 105 ou 107 pounds, nos dias de hoje?
RG - Desculpe interrompê-lo, mas em sua opinião a partir de que ponto um cavalo começa realmente a sentir o peso?
AC - Eu diria que 126 pounds. Abaixo disto em nada sua performance poderá ser afetada.
RG - A respeito de medicação. Dizem os antigos que os cavalos antigamente eram mais medicados. Mas como leigo, o que sinto é que eles eram mais consistentes. Corriam mais vezes. Como você vê esta questão?
AC - Medicação sempre existiu. Muitas tratamentos nada tem a ver com o aumento de capacidade de um animal correr e sim com sua saúde. Hoje estes tratamentos continuam, apenas com uma maior visibilidade. Windstrong, Equipoise dados a uma certa quantidade ao dia apenas ajudam um cavalo a se sentir melhor, mais forte... A verdade é a seguinte, quando você tem uma dor de cabeça, parte para um analgézico, pois, se assim não for, não poderá exercer suas responsabilidades do dia da mesma forma que a conduz nos outros. Um cavalo que sente dor, tem que ser ajudado. Não sei até que ponto as medicações que teoricamente fazem um cavalo correr mais devem ser abolidas. Todavia, o lazix por exemplo é uma ajuda ao cavalo.
RG - Se os cavalos cada dia levam menos peso e o controle da medicação é quase sempre maior, porque não se fazem dois anos mais como Hail to Reason? Seria uma questão deste pais ter optado por cruzar velocidade com velocidade em detrimento da stamina?
AC - Não sou um conhecedor de criação, mas desde que aqui cheguei vejo que os cavalos são criados mais para a velocidade do que para as corridas de duas curvas. E em um tempo chegavam e permaneciam na distância. Noto também, que o reprodutor que foi um bom milheiro, tem se saído melhor. Mas volto a afirmar. Não entendo do assunto e muito menos o estudei a fundo. É apenas o que observo. O que sinto é que está se exigindo muito dos cavalos aos dois anos, com o aumento das bolsas para os dois anos. E muitas vezes, o corpo não aguenta tanta pressão. Mas entendo, pois, antigamente os cavalos sofriam igual pressão e corriam aos 3 aos quatro e em alguns casos aos cinco e mais adiante. Ai passa a ser um problema de se saber se era a medicação que os fazia aguentar, a forma como eram criados ou uma questão do tipo de cruzamento...
RG - Ou quem sabe, por hoje ser mais negócio se vender um cavalo do que corrê-lo.
AC - Acho que você matou o problema. Criar cavalo para correr exige um tipo de metodologia. Ao passo que para apresentá-lo ainda cedo em uma venda, terá que ser ministrado outro. Em meu tempo, quase todos os meus proprietários eram criadores. Hoje, poucos são aqueles que um dia sequer pizaram em uma fazenda. Mas mesmo levando-se em conta esta possibilidade, eu diria que carros que são máquinas. mas mesmo os carros, quando novos tem que ser amaciados. Não se pode exigir tudo deles nas primeiras milhas. Arrebenta com o motor.
RG - O que você pensa da Breeders Cup Juvenile? Agora são umas cinco ou seis.
AC - Levou anos para que um ganhador da Breeders Cup Juvenile ou Champion 2yo tenha conseguido ganhar o Derby, no ano seguinte...
RG - Desde Spectacular Bid, mais precisamente.
AC - Logo, ela exige demais dos dois anos e lhes falta aos três. Fizeram daquele potro do Byrne (Patrick) Horse of the Year...
RG - Favorite Trick.
AC ... exatamente ele. E o que fez aos três anos? Temos que levar com mais cuidado nossos dois anos.
RG - Acabamos de assistir dias atrás a uma grande performance de um cavalo que por fisico e pelo modo de correr, parace que possuí todos os ingridientes para trazer de volta a triplice coroa, tão almejada, desde os idos tempos de Affirmed. Ele foi muito poupado aos dois anos. O que você acha de Big Brown?
AC - Não creio que ele possa ser considerado ainda um cavalo como Secretariat, Ruffian, ou Seattle Slew. Mas ele parece ter a capacidade de correr e suplantar seus problemas. Se existe hoje alguém com chance de ganhar a triplice coroa, creio ser ele.
RG - Mas tem gente que duvida ter ele a capacidade de ganhar o Belmont.
AC - E eles tem razões para assim suspeitar. Não creio que ele terá problemas de ganhar destes que até aqui se mostraram, nas duas primeiras provas da triplice coroa. Mas o Belmont é uma carreira longa e a pista de lá, cansativa. Não é a toa que é normalmente ali que os cavalos tropeçam em seu intento. Mas criticos sempre haverão. Secretariat foi criticado nas duas primeiras provas e venceu ambas em recorde. Ai no Belmont (Stakes), acharam que por suas carectErísticas ele fracassaria, como anos depois aconteceu com Spectacular Bid. Mas o que se viu? Ele ganhou por 34 corpos e em recorde mundial. Cada carreira é uma sentença, e não dá para se prever, o que um cavalo possa fazer pela primeira vez em 2,400m. No mais, não creio que Big Brown seja Secretariat. Para mim ele está mais para Bid. Mas acredito também, que não exista nenhum Sham, por agora.
RG - Angel, me de a sua opinião sobre as pistas sintéticas. Seriam elas a solução para prezervar os cavalos?
AC - Não necessáriamente. Vou citar aquilo que vi, que foi pouco, mas foi o que vi. A de Keeneland, me parece perfeita. Dizem ser ela a original...
RG - Sim ela foi o primeiro sintético inventado no mundo, depois vieram dezenas de outros.
AC - Pois é não sabia, mas pode ser esta a razão. O que sinto é que ela prezerva os cavalos. Na California, não tenho a mesma impressão. As achei duras demais. E parece que alguns hipódromos de lá não estão satisfeitas com a mudança. Foram obrigados a fazê-lo, mas a coisa não anda funcionando da forma que deveria funcionar. Em uma o dreno está falho. Em outras dura demais. Mas como tudo que é novo, é necessário se dar tempo e avaliar os resultados. Não posso dizer que ela será a solução de prezervação dos cavalos. O que sei é que muitos dois anos já chegam aos hipódromos avariados. Vou dizer outra coisa. O problema da falta de consistência que ora vivemos, para mim é uma combinação de excesso de trabalho quando ainda jovens e a constante mudança de pistas. Cada pista, mesmo as de dirt, tem uma característica. Elas mudam de hipódromo para hipódromo. Isto muda o equilibrio do animal quando em pleno exercício de seu treinamento. Até a mudança constante de jóqueis influência. Nos anos 60, os cavalos corriam em um número mais restrito de hipódromos e a grande maioria dos grandes proprietários tinham seus contratados. Acredito, isto faz diferença.
RG - Poucas mudanças em uma criatura de hábitos.
AC - Exatamente. Sempre haverão treinadores que conseguem manter a rotina de um cavalo de corrida e outros não. Sempre haverão cavalos capazes de suplantar todas as dificuldades e outros não. Como tudo na vida. Logo, não é o sintético que vai solucionar este problema. Temos sim, que manter a tradição de nossas pistas de dirt. As que tiverem uma excelente manutenção, deverão ser mais exploradas. A de Churchill, não quebra ninguém. Deveríamos criar o sintético como uma terceira opção. Não simplesmente abolir o dirt. Por exemplo em Belmont, que tem uma excelente pista de grama, deveria também haver uma de sintético. Assim, quando chovesse passariam a carreira para o sintético. Isto afetaria menos o resultado da carreira do que passando-as para o dirt, pois, já notei que 80% dos cavalos de grama correm bem no sintético.
CONTINUA SEGUNDA FEIRA


